O Brasil é um caldeirão cultural e espiritual sem igual, e nesse cenário, as religiões de matriz africana e os cultos ayahuasqueiros/ hoasqueiros se destacam por sua profundidade, resiliência e crescente relevância. Esta seção da Coluna ARCANO SOLAR do MAIS BAHIA mergulha mais fundo nessas expressões de fé genuinamente brasileiras, explorando suas nuances, desafios e a maneira como moldam a identidade espiritual do país.

As Forças do Axé: A Complexidade e a Vitalidade das Religiões Afro-Brasileiras
As religiões afro-brasileiras — notadamente Candomblé e Umbanda — são muito mais do que sistemas de crenças; são complexas estruturas sociais, culturais e espirituais que nasceram da diáspora africana e se desenvolveram em solo brasileiro. Elas representam a resistência e a reinvenção de saberes ancestrais, mesclando-os com elementos indígenas e católicos para formar algo inteiramente novo e autêntico. Os dados do Censo IBGE 2022 são um testemunho de sua vitalidade: o Candomblé alcançou aproximadamente 395 mil adeptos, e a Umbanda registrou cerca de 525 mil seguidores. Esse crescimento é um marco importante, sugerindo uma maior aceitação e um empoderamento na autoidentificação, superando parte do estigma histórico.
Candomblé: A Preservação das Raízes Africanas
O Candomblé é a manifestação mais direta da ancestralidade africana no Brasil. Sua estrutura ritualística é rica e intrincada, centrada no culto aos orixás (divindades da natureza e da vida humana, como Iemanjá, Ogum, Oxum, Xangô, entre outros), aos inquices (no Candomblé banto) e aos voduns (no Candomblé jeje). Cada orixá possui suas próprias cores, cantos, danças, comidas e arquétipos, que são reverenciados em rituais complexos conduzidos pelos pais e mães de santo.
- Fundamentação Teológica: O Candomblé é pautado na crença de que a natureza é habitada por forças divinas e que os seres humanos podem se conectar a elas para obter equilíbrio, saúde e orientação. A oralidade é a base da transmissão de conhecimento, e a comunidade, o terreiro, é o coração da vida religiosa.
- Sincretismo e Identidade: Embora muitas casas de Candomblé busquem purificar suas práticas de elementos católicos, o sincretismo foi crucial para sua sobrevivência durante a perseguição. A associação de orixás a santos católicos permitiu que a fé africana se mantivesse viva. Hoje, há uma forte valorização da identidade africana e da ancestralidade.
- Desafios e Lutas: Apesar do crescimento em número de adeptos, o Candomblé ainda é alvo de intolerância religiosa. Ataques a terreiros, discriminação e preconceito são realidades diárias, o que ressalta a importância da luta por direitos e reconhecimento. A preservação do patrimônio imaterial, como os cantos e as tradições, também é um desafio constante.

Umbanda: A Religião Brasileira por Excelência
A Umbanda, nascida no Rio de Janeiro no início do século XX, com o médium Zélio Fernandino de Moraes, é um dos mais fascinantes exemplos de sincretismo e criação religiosa no Brasil. Ela integra elementos do catolicismo popular (com a figura de Jesus e Maria), do espiritismo kardecista (mediunidade e reencarnação) e das tradições africanas e indígenas (com a manifestação de guias espirituais).
- Mediunidade e Caridade: A mediunidade é central na Umbanda, com a incorporação de Pretos Velhos (espíritos de escravos sábios e benevolentes), Caboclos (espíritos de indígenas e bandeirantes, ligados à força da natureza), Crianças (espíritos de pureza e alegria), e outras falanges como Exus e Pombagiras (entidades que atuam nas questões mais terrenas e complexas). A caridade, expressa na ajuda e aconselhamento aos consulentes, é um pilar fundamental da prática umbandista.
- Diversidade de Linhas: A Umbanda não é monolítica; existem diversas “linhas” ou vertentes (Umbanda Sagrada, Umbanda Branca, Umbanda Esotérica, Umbandaime, etc.), cada uma com suas especificidades rituais e doutrinárias, mas todas unidas pelos princípios da caridade e da evolução espiritual.
- Influência Cultural: A Umbanda tem uma presença marcante na cultura brasileira, influenciando a música, a literatura e as artes visuais. Sua mensagem de inclusão e respeito à diversidade de espíritos ressoa com a própria alma plural do Brasil.

A Força da Floresta: As Religiões Ayahuasqueiras/Hoasqueira e a Busca por Expansão da Consciência
As religiões que utilizam a Ayahuasca como sacramento central representam um fenômeno espiritual em crescimento, especialmente nas últimas décadas. Originária da Amazônia, a Ayahuasca — uma decocção de duas plantas (o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas de Psychotria viridis) — é uma bebida enteógenea (grego en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador), ou “gerador da divindade interna” uma vez que seu uso se dá em contextos ritualísticos específicos que induz estados de concentração de consciência, utilizada para autoconhecimento, cura e conexão espiritual. O Censo IBGE 2022 trouxe dados mais específicos para algumas delas, com a União do Vegetal (UDV) registrando cerca de 20 mil adeptos e o Santo Daime com aproximadamente 15 mil adeptos. É importante notar que esses números representam apenas as instituições formalizadas, e a prática da Ayahuasca é muito mais difundida em outros grupos e contextos.
União do Vegetal (UDV): Racionalidade e Consciência
Fundada em 1961 pelo Mestre Gabriel no Acre (então território fronteiriço do Brasil com a Bolívia), a União do Vegetal (UDV) é uma das mais organizadas e estruturadas religiões ayahuasqueiras. Caracteriza-se por uma doutrina que enfatiza a disciplina, a ética e o estudo.
- O Vegetal e a Luz: A Ayahuasca, ou “Hoasca” como é chamada na UDV, é o “Vegetal”, considerado a “Luz” que ilumina a consciência e possibilita o autoconhecimento e o desenvolvimento moral. Os rituais, chamados “Sessões”, são conduzidos com rigor e seriedade, com foco na concentração e na meditação.
- Estrutura e Expansão: A UDV possui uma hierarquia bem definida e centros (núcleos) em todo o Brasil e em diversos países. Sua expansão se deve, em parte, à sua capacidade de integrar a experiência ayahuasqueira com uma doutrina clara e valores de fraternidade, paz e aprimoramento moral. A organização tem um papel ativo na defesa do uso ritualístico da Ayahuasca perante as autoridades, contribuindo para a sua regulamentação.
- Pesquisa e Ciência: A UDV também se destaca pelo incentivo à pesquisa científica sobre a Ayahuasca, colaborando com estudos que investigam seus potenciais terapêuticos e neurológicos, buscando desmistificar preconceitos e consolidar seu reconhecimento.
A Vida e Legado de Mestre Gabriel, Fundador da União do Vegetal
José Gabriel da Costa — oitavo dos catorze filhos de Manuel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da Costa — nasceu em 10 de fevereiro de 1922.
Por volta dos 20 anos, mudou-se para Salvador, onde trabalhou no comércio, especificamente no Mercado Sete Portas, e posteriormente como condutor de bonde. Na capital baiana, José Gabriel também ganhou reconhecimento no universo da capoeira, sendo conhecido como Mestre Zé Bahia.
Mestre Gabriel prosseguiu sua jornada, dedicando-se à distribuição do Vegetal e disseminando seus ensinamentos.
União do Vegetal. O objetivo central da instituição era, e ainda é, o desenvolvimento das virtudes morais, intelectuais e espirituais do ser humano.

Santo Daime: A Floresta, a Fé e a Espiritualidade Hínica
O Santo Daime surgiu na Amazônia acreana na década de 1930 com o Mestre Irineu Serra. É uma vertente ayahuasqueira com uma forte musicalidade, expressa nos seus hinoários, que são cantados durante os rituais. A prática do Daime integra elementos cristãos, espiritistas e do folclore amazônico.
- O Daime e os Hinos: O “Daime” (Ayahuasca) é o sacramento que abre as portas para a conexão espiritual. Os hinos, muitos recebidos mediunicamente, são a base da doutrina e da prática, conduzindo os participantes por uma jornada de introspecção, reflexão e cura.
- Rituais e Simbolismos: Os rituais do Santo Daime são marcados por cânticos, danças, fardamento e a ingestão do Daime. Os símbolos cristãos (cruz, estrela de Davi) coexistem com referências à floresta e aos elementos da natureza, refletindo o sincretismo presente.
- Diversidade de Linhas: Assim como a Umbanda, o Santo Daime se ramificou em diversas linhas após a morte de Mestre Irineu, cada uma com suas particularidades, mas todas reverenciando o Daime como um “professor” e um “curador”.
No alvorecer do século XX, Raimundo Irineu Serra, mais conhecido como Mestre Irineu, partiu do Maranhão em direção ao Acre, um destino compartilhado por muitos nordestinos impulsionados pela febre da borracha. Durante esse período, Irineu serviu como soldado na fronteira Brasil-Peru, uma experiência que o conectou profundamente à floresta amazônica. Foi nesse ambiente que ele teve seu primeiro contato com a ayahuasca, uma bebida ritualística ancestral, utilizada pelos povos indígenas da região.
Esse encontro transformador, que Irineu descreveu como guiado pela Virgem da Imaculada Conceição, o levou a desenvolver uma doutrina espiritual única. Ele a batizou de “Daime“, em alusão à instrução recebida da Rainha da Floresta (a Virgem Maria): “Dai-me luz, dai-me força, dai-me amor”.
Os Pilares do Santo Daime
A prática do Santo Daime é uma fusão rica de cristianismo popular com elementos afro-brasileiros, indígenas e esotéricos. Seus rituais são conduzidos por hinos que formam os hinários, servindo como guias para os trabalhos espirituais e para a jornada de autoconhecimento e transformação moral. A fé é profundamente cristocêntrica e mariana, reverenciando não apenas Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora da Conceição, São José e São João Batista, mas também os Caboclos da Floresta. Dentre estes, destaca-se a linha dos Caboclos do Tucum, intrinsecamente ligada à missão espiritual de Mestre Irineu.

Reconhecimento e Desafios para as Religiões Autóctones
As religiões afro-brasileiras e ayahuasqueiras, embora distintas em suas origens e práticas, compartilham a jornada de buscar reconhecimento e enfrentar preconceitos. Os números do Censo 2022 mostram um avanço significativo na autoidentificação, o que é um passo fundamental para a visibilidade e o combate à intolerância religiosa. No entanto, a luta contra o racismo religioso e a estigmatização, especialmente contra as religiões de matriz africana, permanece uma realidade.
Para as religiões ayahuasqueiras, o desafio reside em conciliar a expansão com a manutenção da seriedade e do respeito aos seus ritos, em um contexto onde o uso da Ayahuasca também pode ser desvirtuado por propósitos não religiosos. A regulamentação pelo CONAD é um avanço crucial, mas a conscientização e a educação pública são fundamentais para garantir a liberdade religiosa e o respeito a essas práticas.
Aprofundar-se nessas religiões é compreender a riqueza da alma brasileira, marcada pela resiliência, pela fé e pela busca incessante por uma conexão mais profunda com o sagrado, seja ele manifestado na força dos orixás, na sabedoria dos guias espirituais ou na expansão da consciência proporcionada pela floresta.

