POR FABIO DEL PORTO
A Páscoa se apresenta, mais uma vez, não apenas como uma data no calendário ou um feriado comercial, mas como um poderoso lembrete da capacidade humana de se transformar. No cerne de seu simbolismo, encontramos a ideia da travessia: a passagem da escravidão para a liberdade, da morte para a vida, da escuridão para a luz. É um rito de renovação que exige, antes de tudo, coragem para deixar para trás o que já não serve.
Ao olharmos para o nosso momento histórico atual, a comparação com o simbolismo pascal torna-se inevitável e urgente. Vivemos em uma era de conexões digitais instantâneas, mas de profundas desconexões humanas. O mundo enfrenta fragmentações políticas, crises climáticas e uma exaustão emocional coletiva que parece nos manter presos a um “inverno” do espírito. Se a Páscoa representa a saída do deserto, parece que, como sociedade, ainda estamos tateando em busca de uma direção que nos leve ao coletivo, e não apenas ao individual.
Nesse cenário, o exemplo deixado por Jesus Cristo transcende o campo religioso para se tornar uma diretriz ética universal: o amor como ação política e social.
O amor deixado por esse mestre não foi um sentimento passivo ou romântico. Foi um amor disruptivo, que escolheu os marginalizados, que praticou o perdão quando a vingança era a norma e que priorizou a dignidade humana acima de leis burocráticas ou interesses de poder. Para a humanidade, o exemplo é claro: a verdadeira “ressurreição” de uma sociedade acontece quando somos capazes de sacrificar nosso egoísmo em favor do bem comum.
Uma reflexão necessária
No entanto, cabe aqui um questionamento que nos tira da zona de conforto: estamos realmente dispostos a viver essa renovação ou estamos apenas “pintando os ovos” de velhos hábitos? Falar de amor é fácil; praticá-lo em uma sociedade polarizada, onde o “outro” é visto como inimigo, é o verdadeiro desafio da nossa travessia.
A Páscoa nos convida a refletir se estamos sendo agentes de vida ou se estamos ajudando a manter as pedras selando os túmulos da intolerância e da indiferença. Que este momento não seja apenas um intervalo na rotina, mas o ponto de partida para uma postura mais empática. Afinal, a ressurreição só faz sentido se ela começar, primeiro, dentro de cada um de nós.

