POR ROD PEREIRA
Quatro jovens violentam uma adolescente. Uma freira é atacada durante um assalto. Milhares de mulheres apanham dentro de casa e muitas sequer denunciam. Algumas porque têm medo. Outras porque foram ensinadas a suportar. Em certos ambientes religiosos, inclusive, a dor feminina precisa ser engolida em silêncio, transformada em oração, interpretada como provação ou parte de um misterioso plano divino. E enquanto essas histórias se repetem com uma frequência assustadora, o país celebra, e as redes sociais ficam inundadas de textos, homenagens e declarações emocionadas pelo Dia Internacional da Mulher.
Existe algo profundamente desconfortável nesse contraste. Nos dias que antecedem o 8 de março, políticos começam a fazer manifestações e discursos sobre igualdade, empresas publicam mensagens comoventes nas redes sociais e o país inteiro parece subitamente tomado por uma consciência feminista de ocasião. No próprio dia 8, as homenagens se multiplicam, flores são entregues, discursos são repetidos e promessas são renovadas. No dia seguinte, porém, a realidade volta ao seu curso habitual. As delegacias continuam recebendo denúncias de agressões domésticas, os tribunais seguem julgando feminicídios e muitas mulheres continuam voltando para casa com medo.
Os números ajudam a desmontar essa encenação coletiva. O Brasil registra mais de 1.400 feminicídios por ano, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em termos simples, significa que quatro mulheres são assassinadas todos os dias por serem mulheres. Esse número já seria aterrador por si só, mas ele ainda esconde uma realidade maior: muitos casos sequer chegam ao registro oficial. Entre o silêncio das vítimas, o medo das famílias e a lentidão das instituições, parte da violência desaparece antes mesmo de virar estatística.

Mas a desigualdade contra a mulher não se manifesta apenas na violência física. Ela também se revela no espaço onde o poder é decidido. As mulheres representam mais da metade da população brasileira, mas ocupam apenas cerca de 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados e menos de 20% do Senado. Nos municípios, o quadro pouco melhora. Menos de um quinto das prefeituras brasileiras é comandado por mulheres. Em outras palavras, a maioria da população continua sendo governada por uma minoria de representantes.
O problema se aprofunda quando se observa o processo eleitoral. Mulheres que decidem disputar cargos públicos enfrentam campanhas com menos financiamento, menos apoio partidário e mais hostilidade política. O jogo democrático, que deveria garantir igualdade de competição, começa com regras silenciosamente inclinadas para um lado. Depois que o resultado aparece nas urnas, o país se pergunta por que existem tão poucas mulheres no poder. A pergunta é sempre a mesma. A resposta também.
Nesse cenário, o discurso político sobre igualdade costuma soar grandioso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala com frequência sobre ampliar o espaço das mulheres na política e sobre a importância das companheiras na construção de um país mais justo. O problema é que, apesar do discurso lindo e progressista do companheiro, a realidade mostra que, em seu governo, pouco se fez de estrutural para alterar o lugar das mulheres no poder. Quando teve a oportunidade de indicar mais uma mulher ao Supremo Tribunal Federal, optou novamente por um homem. Ao mesmo tempo, ministras de seu próprio governo convivem com limitações políticas evidentes ou com perda gradual de protagonismo. A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, raramente consegue impor sua pauta no centro da agenda nacional; a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, ainda luta para transformar simbolismo em políticas estruturais mais robustas; a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, enfrenta limites institucionais que restringem o alcance de sua atuação; a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, frequentemente precisa disputar espaço político dentro do próprio governo; a ministra da Cultura, Margareth Menezes, tem atuação relevante no campo cultural, mas presença discreta nas decisões estratégicas do poder; e até a ministra do Planejamento, Simone Tebet, ex-senadora e figura central no processo eleitoral recente, parece muitas vezes confinada a um papel mais técnico do que político dentro da estrutura do governo.
Talvez porque a raiz dessa desigualdade seja mais profunda do que a política. Ela está entranhada na cultura. Está nas piadas que naturalizam o machismo, nas famílias que ainda educam meninos e meninas com expectativas diferentes, nas perguntas que se fazem à vítima em vez de ao agressor. O país que celebra o Dia da Mulher com flores é o mesmo que ainda pergunta o que ela estava vestindo, onde estava e por que saiu sozinha.
Por isso o 8 de março se tornou uma data paradoxal. É ao mesmo tempo uma celebração e um lembrete incômodo. Celebra-se a força feminina enquanto se ignora o sistema que continua produzindo violência, desigualdade e silêncio. O país que distribui flores é o mesmo que ainda não conseguiu garantir segurança básica, igualdade política e respeito cotidiano para suas mulheres.
Talvez o verdadeiro gesto de respeito não fosse entregar flores.
Talvez fosse dividir poder.
Porque igualdade não se constrói com homenagens ocasionais nem com discursos emocionados que desaparecem no dia seguinte. Igualdade se constrói com leis eficazes, com segurança nas ruas, com salários iguais e com presença real das mulheres nos espaços onde as decisões são tomadas.
Enquanto isso não acontecer, o Dia Internacional da Mulher continuará sendo, no fundo, uma data incompleta. Não exatamente uma celebração, mas um espelho desconfortável que revela a distância entre o país que diz respeitar as mulheres e o país que, todos os dias, ainda falha em protegê-las.


