O Brasil já teve uma direita que lia livros. Roberto Campos e Eugênio Gudin, por exemplo, eram homens de cálculo e de ideia. Discorde-se deles ou não, tinham projeto, tinham consistência, produziam pensamento econômico que atravessava fronteiras. Falavam em desenvolvimento, eficiência, reformas estruturais. Era a direita liberal clássica, que brigava em congressos acadêmicos, não em grupos de WhatsApp.
A “nova direita” brasileira, ao contrário, trocou a biblioteca pelo meme. Nasceu sob o signo da indignação fácil, surfou na onda antipolítica e transformou ressentimento em método. Seus gurus não publicam livros, mas threads; não discutem índices de produtividade, mas slogans inflamados. A economia virou figurante: o palco é tomado pelo moralismo, pelo ódio a minorias, pelo culto à força.
Enquanto Campos e Gudin defendiam modernização econômica em um país atrasado, a nova direita prefere defender retrocessos travestidos de tradição. Trocaram o debate de política fiscal pela guerra cultural, a ciência pelo achismo e a sobriedade do argumento pelo grito histérico.
O resultado é esse: um país que poderia ter produzido uma direita liberal robusta e democrática acabou sequestrado por caricaturas de estadistas, que confundem democracia com obstáculo e golpe com solução. Da direita de gabinete à direita de zap, o Brasil saiu do cálculo e caiu na cacofonia.
Campos foi um dos cérebros por trás da criação do BNDE (hoje BNDES), instituição que se tornaria fundamental para financiar o desenvolvimento brasileiro, apoiando grandes projetos de infraestrutura e industrialização. Eugênio Gudin, por sua vez, foi pioneiro na defesa da estabilidade monetária e da responsabilidade fiscal, tendo papel central na formulação de políticas que buscavam equilibrar modernização com disciplina orçamentária. Ambos, à sua maneira, acreditavam que o Brasil precisava se inserir de forma racional no mundo.

Roberto Campos já dizia que “O Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades.” E não estava falando de retórica: ele refletia uma realidade estrutural, o atraso de pensamento, institucional e cultural, que trava qualquer salto de desenvolvimento. A frase, embora antiga, serve como diagnóstico perfeito para a direita atual, que se contenta em perder tempo com histerias digitais enquanto o país segue atrasado no essencial.
Comparar essa tradição com a “nova direita” é quase um insulto à inteligência. Se Campos e Gudin brigavam com números e diagnósticos, a direita atual briga com fantasmas ideológicos. Se eles ajudaram a erguer instituições sólidas, a direita de hoje se dedica a destruí-las em nome de cruzadas morais. Onde havia um debate sobre crescimento e futuro, hoje há apenas ressentimento, memes e idolatria cega.
A ironia é que a direita de Campos e Gudin era capaz de discutir Keynes, Hayek e o papel do Estado. Já a direita de zap só consegue discutir “kit gay” e teorias conspiratórias de Telegram. A primeira projetava um país que crescia; a segunda encolhe o Brasil ao tamanho de sua paranoia.
No fundo, a “nova direita” não é direita coisa nenhuma. É um populismo tosco que veste a fantasia liberal quando convém, mas que no essencial é autoritário, barulhento e avesso à razão. Enquanto a direita pensante sonhava em erguer um país moderno, a direita de zap parece feliz em mantê-lo no atraso, desde que possa gritar mais alto nas redes.
Do cálculo de Campos à gritaria de zap: a direita brasileira não perdeu só oportunidades, perdeu também a inteligência.
- Rod Pereira
Dramaturgo, estrategista de marketing, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, cronista e provocador de ideias. “Meu texto é farpa e abraço, caos e poesia.Sempre com uma boa dose de ironia e humanidade”.


