Fernando Henrique Cardoso é aquele tipo de presidente que virou heresia citar. Fez mais pela economia que todos os autoproclamados liberais que vieram depois e mais pelo social do que a esquerda que jura ter inventado a compaixão. Mas o Brasil é um país que detesta quem pensa e idolatra quem grita. Por isso, enquanto os palanques berram, FHC segue sendo o pecado original da política moderna: o homem que funcionou.
O liberal de verdade
Entre 1995 e 2002, FHC vendeu o que era preciso vender e reformou o que era preciso reformar. Foram mais de 80 estatais privatizadas, gerando R$ 78,6 bilhões cerca de R$ 2,3 trilhões em valores atuais. Era o fim do Estado obeso e o início do país que aprendeu a fazer conta. Mas ao contrário dos liberais de TikTok, FHC não posava com camisa do “Chicago Boys”: trabalhava em silêncio, com economistas, não com youtubers.
Enquanto isso, décadas depois, Jair Bolsonaro tentava imitar o discurso liberal com a sutileza de um trator. Prometeu “privatizar tudo”, e entregou o quê? Mensagem no Zap. Fez menos de quarenta privatizações e arrecadou o equivalente a uma lambuja do que FHC fez 25 anos antes, mesmo com a inflação trinta vezes maior.
O capitão dizia “menos Estado”, mas governava com o Centrão e o cartão corporativo. Se FHC foi o liberal que fez, Bolsonaro foi o liberal que mamou.
O social que a esquerda herdou e jamais admitiu
Enquanto desmontava o Estado empresário e paquidérmico, FHC criava o Estado social moderno. De suas mãos nasceram Bolsa-Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio-Gás e outros programas que são os precursores diretos do Bolsa Família.
Foram R$ 30 bilhões investidos até 2002 (o equivalente a quase R$ 1 trilhão de hoje), beneficiando milhões de famílias que antes eram apenas estatísticas.
E o que fez Lula? Unificou, ampliou e rebatizou. Transformou a engrenagem em espetáculo, o programa em bandeira, a política em marketing.
Nada contra, Lula “O Grande Líder” é gênio no palanque, mas o DNA do social brasileiro tem RG tucano. Foi FHC quem criou a base de dados, o sistema de repasses e os mecanismos que sustentaram o Bolsa Família.
O mesmo vale para o ensino superior: a expansão universitária e o estímulo às privadas, iniciados por FHC, abriram caminho para o ProUni, que Lula apenas empacotou com laço vermelho e slogan de campanha. FHC plantou. Lula colheu.
E Bolsonaro tentou comer o fruto, mas engasgou com o caroço.
Comparativo para quem ainda acha que é “opinião”
| Eixo | FHC (1995–2002) | Lula (2003–2010) | Bolsonaro (2019–2022) |
| Empresas privatizadas | 80 federais | 0 | 35 |
| Arrecadação (valores da época) | R$ 78,6 bi | — | R$ 120 bi (est.) |
| Arrecadação corrigida (2024) | R$ 2,3 tri | — | R$ 120 bi |
| Programas sociais criados | Bolsa-Escola, Alimentação, Auxílio-Gás | Bolsa Família, ProUni | Auxílio Brasil (renomeado) |
| Investimento social total (época) | R$ 30 bi | R$ 150 bi aprox. | R$ 170 bi (pandemia) |
| Estilo de governo | Técnico, racional | Carismático, populista | Caótico, teatral |
Entre o discurso e a entrega
Bolsonaro foi o liberal de bravata e Lula o socialista de palco. Um usava a Bíblia para governar, o outro usava o marketing. Enquanto um desmantelava a razão em nome do caos, o outro transformava a miséria em ativo eleitoral.
FHC, esse herege, acreditava em política pública coisa rara num país que só acredita em milagres.
Seu crime? Ter feito o país funcionar sem pedir bênção a nenhum santo político. A direita o odeia porque ele não bate continência. A esquerda o despreza porque ele não chora no palanque. Mas ambos se beneficiam do que ele construiu: a moeda estável, os programas sociais e o Brasil que, por um breve momento, soube planejar.
FHC é o paradoxo que o Brasil não suporta. Um liberal que criou política social.
Um acadêmico que entendeu o poder. Um presidente que não precisou de messianismo, nem de cercadinho. Enquanto Lula vendia esperança e Bolsonaro vendia medo, FHC entregava resultado. E no fim, foi cancelado por ter sido racional demais num país que só respeita a histeria.
- Rod Pereira
Dramaturgo, estrategista de marketing, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, cronista e provocador de ideias. “Meu texto é farpa e abraço, caos e poesia.Sempre com uma boa dose de ironia e humanidade”.

