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ARCANO SOLAR

O silêncio que se come: como a Bahia vive a Semana Santa entre a cruz e o axé

A Semana Santa é vivida na Bahia de forma única, indo além da tradição católica oficial ao incorporar elementos da cultura e religiosidade afro-brasileira.Enquanto o cristianismo prega silêncio, jejum e introspecção na Sexta-feira da Paixão, a Bahia transforma o período em uma expressão de resistência cultural através da comida — especialmente pratos à base de dendê, como caruru e vatapá.
3 de abril de 2026
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A Semana Santa baiana é um mosaico onde a Paixão de Cristo encontra a força de Oxalá, e o luto divide espaço com a certeza da renovação pascal — tudo isso expresso na mistura entre fé, silêncio e axé.

REDAÇÃO | POR FABIO DEL PORTO | ARCANO SOLAR |

Na Bahia, a Semana Santa não cabe apenas nas igrejas. Ela também se encontra nas cozinhas de dendê, no recolhimento dos terreiros e no silêncio que, durante a Sexta-feira da Paixão, pede licença para o sagrado. Mais do que a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o período se transforma em solo fértil para um fenômeno único: o sincretismo religioso e cultural que une a tradição católica às heranças africanas .

Do ponto de vista histórico, a Semana Santa é o ápice do calendário litúrgico cristão, enraizado na Pessach judaica e consolidado no século IV. No entanto, foi no Brasil, e especialmente na Bahia, que esta celebração ganhou contornos singulares. Para entender essa vivência, é preciso ir além do Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão e Vigília Pascal) e observar como a cultura local ressignificou os preceitos religiosos .

A mesa como resistência: o pecado não tem vez no dendê

Enquanto o restante do Brasil se abstém de carne vermelha, o baiano transforma a Sexta-feira Santa em um banquete de identidade. A troca do churrasco pelo peixe acompanhado de caruru, vatapá e mingau de amendoim não é apenas uma adequação ao preceito católico; é um ato de continuidade ancestral .

Historiadores explicam que o consumo da “comida de dendê” neste período é um resquício do hibridismo cultural forçado pelo colonizador português, mas também um gesto de resistência dos povos escravizados. Mesmo sob a imposição do cristianismo, os africanos mantiveram viva a conexão com seus orixás através da comida .

“A comida é o elo que termina linkando tudo. É o elo de comunicação dos seres humanos e os ancestrais, os orixás.” — Paloma Zahir, egbomi e chef de cozinha afro-brasileira .

Enquanto a Igreja prega o silêncio e a introspecção, o axé do dendê ferve nos tachos, demonstrando que, na Bahia, a fé se expressa tanto pela dor da cruz quanto pela fartura da mesa.

Um outro exemplo é a da Chef Deliene Mota. Quando perguntada sobre qual prato representa a Semana Santa baiana, a Chef Deliene , em entrevista ao portal Muito Gourmet, a resposta é certeria: moqueca de peixe, caruru, vatapá, feijão fradinho, arroz e farofa de dendê. Segundo a entrevista, não é uma resposta de chef calculando impacto. É memória de infância. “Na minha infância, adolescência e até na minha vida adulta, sempre foi tradição na minha família“, conta. “É o verdadeiro cardápio afetivo da minha vida.” Sexta-feira Santa sempre foi sagrada na família de Deliene.

Chef Deliene Mota – Foto: Divulgação

“Na minha infância, adolescência e até na minha vida adulta, sempre foi tradição na minha família“, conta. “É o verdadeiro cardápio afetivo da minha vida.” Sexta-feira Santa sempre foi sagrada na família da Chef Deliene Mota.

O respeito que silencia os tambores

Há um equívoco em pensar que o sincretismo é uma confusão de ritos. Na prática baiana, ele é uma justaposição de respeito. Diferente de outras regiões, na Bahia os terreiros de candomblé frequentemente suspendem suas atividades durante a Semana Santa como sinal de reverência à tradição cristã .

Essa simbiose é visível na relação entre santos e orixás. Assim como Santa Bárbara é celebrada com as vestes vermelhas de Iansã (guerreira dos raios e ventos), a Semana Santa também é vivida com a mesma intensidade por devotos de ambas as fés .

O padre Marcos Tavares, da Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, observa que “a Semana Santa aqui não é só católica. Ela é do povo” . Este respeito mútuo, construído ao longo de séculos de convivência, faz com que o período não seja visto como uma competição teológica, mas como um momento de recolhimento universal.

Por que “cozinhas de dendê”? O termo foi usado como uma figura de linguagem (metonímia e sinédoque) para representar, de forma poética e culturalmente precisa

Luto e renovação nas ruas e lares

Enquanto Salvador oferece as procissões solenes no Centro Histórico, o interior da Bahia preserva os rituais mais antigos. Em cidades como Cachoeira e Santo Amaro, a tradição de cobrir espelhos, vestir roupas sóbrias e manter um rigoroso silêncio na Sexta-feira Santa ainda é observada pelas famílias mais tradicionais .

Esse recolhimento contrasta com a imagem festiva do estado, mas revela a profundidade da fé popular. “Aqui a gente aprende desde cedo que a Semana Santa não é tempo de festa. É tempo de reflexão. Minha mãe cobria os espelhos da casa”, relembra dona Lúcia Ferreira, moradora de Jacobina .

A Semana Santa na Bahia é, portanto, um mosaico de silêncios e sabores. É o período em que a Paixão de Cristo encontra a força de Oxalá e onde o luto pela morte divide espaço com a certeza da renovação na Páscoa. Mais do que um feriado religioso, é a celebração de uma identidade que aprendeu a sobreviver — e a resistir — na mistura .


E para você: Como o sincretismo religioso presente na mesa e nos gestos dos baianos influencia a forma como enxergamos o “sagrado” no cotidiano do Brasil?

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