REDAÇÃO | POR FABIO DEL PORTO | ARCANO SOLAR |
Na Bahia, a Semana Santa não cabe apenas nas igrejas. Ela também se encontra nas cozinhas de dendê, no recolhimento dos terreiros e no silêncio que, durante a Sexta-feira da Paixão, pede licença para o sagrado. Mais do que a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o período se transforma em solo fértil para um fenômeno único: o sincretismo religioso e cultural que une a tradição católica às heranças africanas .
Do ponto de vista histórico, a Semana Santa é o ápice do calendário litúrgico cristão, enraizado na Pessach judaica e consolidado no século IV. No entanto, foi no Brasil, e especialmente na Bahia, que esta celebração ganhou contornos singulares. Para entender essa vivência, é preciso ir além do Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão e Vigília Pascal) e observar como a cultura local ressignificou os preceitos religiosos .
A mesa como resistência: o pecado não tem vez no dendê
Enquanto o restante do Brasil se abstém de carne vermelha, o baiano transforma a Sexta-feira Santa em um banquete de identidade. A troca do churrasco pelo peixe acompanhado de caruru, vatapá e mingau de amendoim não é apenas uma adequação ao preceito católico; é um ato de continuidade ancestral .
Historiadores explicam que o consumo da “comida de dendê” neste período é um resquício do hibridismo cultural forçado pelo colonizador português, mas também um gesto de resistência dos povos escravizados. Mesmo sob a imposição do cristianismo, os africanos mantiveram viva a conexão com seus orixás através da comida .
“A comida é o elo que termina linkando tudo. É o elo de comunicação dos seres humanos e os ancestrais, os orixás.” — Paloma Zahir, egbomi e chef de cozinha afro-brasileira .
Enquanto a Igreja prega o silêncio e a introspecção, o axé do dendê ferve nos tachos, demonstrando que, na Bahia, a fé se expressa tanto pela dor da cruz quanto pela fartura da mesa.
Um outro exemplo é a da Chef Deliene Mota. Quando perguntada sobre qual prato representa a Semana Santa baiana, a Chef Deliene , em entrevista ao portal Muito Gourmet, a resposta é certeria: moqueca de peixe, caruru, vatapá, feijão fradinho, arroz e farofa de dendê. Segundo a entrevista, não é uma resposta de chef calculando impacto. É memória de infância. “Na minha infância, adolescência e até na minha vida adulta, sempre foi tradição na minha família“, conta. “É o verdadeiro cardápio afetivo da minha vida.” Sexta-feira Santa sempre foi sagrada na família de Deliene.

“Na minha infância, adolescência e até na minha vida adulta, sempre foi tradição na minha família“, conta. “É o verdadeiro cardápio afetivo da minha vida.” Sexta-feira Santa sempre foi sagrada na família da Chef Deliene Mota.
O respeito que silencia os tambores
Há um equívoco em pensar que o sincretismo é uma confusão de ritos. Na prática baiana, ele é uma justaposição de respeito. Diferente de outras regiões, na Bahia os terreiros de candomblé frequentemente suspendem suas atividades durante a Semana Santa como sinal de reverência à tradição cristã .
Essa simbiose é visível na relação entre santos e orixás. Assim como Santa Bárbara é celebrada com as vestes vermelhas de Iansã (guerreira dos raios e ventos), a Semana Santa também é vivida com a mesma intensidade por devotos de ambas as fés .
O padre Marcos Tavares, da Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, observa que “a Semana Santa aqui não é só católica. Ela é do povo” . Este respeito mútuo, construído ao longo de séculos de convivência, faz com que o período não seja visto como uma competição teológica, mas como um momento de recolhimento universal.

Luto e renovação nas ruas e lares
Enquanto Salvador oferece as procissões solenes no Centro Histórico, o interior da Bahia preserva os rituais mais antigos. Em cidades como Cachoeira e Santo Amaro, a tradição de cobrir espelhos, vestir roupas sóbrias e manter um rigoroso silêncio na Sexta-feira Santa ainda é observada pelas famílias mais tradicionais .
Esse recolhimento contrasta com a imagem festiva do estado, mas revela a profundidade da fé popular. “Aqui a gente aprende desde cedo que a Semana Santa não é tempo de festa. É tempo de reflexão. Minha mãe cobria os espelhos da casa”, relembra dona Lúcia Ferreira, moradora de Jacobina .
A Semana Santa na Bahia é, portanto, um mosaico de silêncios e sabores. É o período em que a Paixão de Cristo encontra a força de Oxalá e onde o luto pela morte divide espaço com a certeza da renovação na Páscoa. Mais do que um feriado religioso, é a celebração de uma identidade que aprendeu a sobreviver — e a resistir — na mistura .
E para você: Como o sincretismo religioso presente na mesa e nos gestos dos baianos influencia a forma como enxergamos o “sagrado” no cotidiano do Brasil?


