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Início » A Patifaria da Amizade
COLUNAS POLÍTICA

A Patifaria da Amizade

30 de maio de 2026
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Ah, o Brasil! Essa pátria amada, idolatrada, salve, salve, onde a amizade é um bem tão precioso que serve para tudo, menos para ser sincera. Principalmente quando se trata de nossos ilustres homens públicos. Eles, os arautos da moralidade alheia, os paladinos da ética seletiva, transformam a palavra “amigo” num escudo mágico, um passe livre para a patifaria, um atestado de inocência pré-datado. É uma ópera bufa, um delírio coletivo, uma psicose tropical onde a realidade se dobra à conveniência do compadrio.

Nessa terra de bananas e pedalinhos, a amizade é a moeda forte do subdesenvolvimento moral. Não é aquela amizade de boteco, de dividir a conta e as lamúrias. Não! É a amizade de milhões, de sítios reformados, de anéis de brilhantes e de empréstimos que nunca serão pagos. É a amizade que, de tão profunda, se confunde com propina, com tráfico de influência, com a mais pura e deslavada cara de pau.

Tomemos, por exemplo, o caso do Sítio de Atibaia. Nosso presidente, com a candura de um beato, jurava de pés juntos que o imóvel era de “amigos”. Amigos tão generosos que reformaram a propriedade com o dinheiro de empreiteiras, transformando-a num paraíso particular com pedalinho e tudo. E o mais delicioso é que, nas planilhas da Odebrecht, o codinome para o ilustre beneficiário era, vejam só, “Amigo”. Uma ironia que nem o mais cínico dos roteiristas conseguiria inventar. É a prova cabal de que, no Brasil, a amizade é um negócio sério, tão sério que tem até contabilidade paralela.

Não muito distante, temos o episódio do senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Ah, a sétima arte! A paixão pelo cinema unindo corações e milhões. Flávio, em sua busca por financiamento para um filme sobre seu pai, o ex-presidente, encontrou em Vorcaro um “amigo” disposto a negociar R$ 134 milhões. E, como cereja do bolo, um plano secreto para levar o ex-presidente à mansão do banqueiro em Brasília. Tudo em nome da arte, da amizade e, quem sabe, de um bom roteiro para a próxima temporada de “House of Cards: Brasília Edition”. A amizade, nesse caso, é um produtor executivo de peso, com um orçamento de fazer inveja a Hollywood.

E o que dizer de Michel Temer e o Coronel Lima? Uma amizade de mais de 30 anos, sólida como rocha, ou seria como propina? A reforma da casa da filha de Temer, Maristela, foi gentilmente custeada pela Argeplan, empresa do Coronel Lima. Dinheiro bem-aventurado, claro. Mas para eles, era apenas um “favor entre amigos”, um gesto de carinho, uma demonstração de lealdade que transcende as leis da física e da ética. É a amizade que vira empreiteira, arquiteta e decoradora, tudo ao mesmo tempo.

Não podemos esquecer do glamour de Sérgio Cabral e Fernando Cavendish. Um anel de brilhantes de R$ 800 mil, um mimo do dono da Delta para a esposa do então governador. Um “presente de aniversário”, uma “lembrança da amizade”. Uma joia que, de tão reluzente, ofuscou a decência e a legalidade. A amizade, aqui, é um joalheiro de luxo, com um catálogo de presentes que fariam inveja à realeza.

E, para fechar com chave de ouro essa galeria de amigos do alheio, temos Aécio Neves e Joesley Batista. Um “empréstimo entre amigos” de R$ 2 milhões para pagar advogados. Uma quantia modesta, para quem tem amigos tão abastados. A amizade, nesse caso, é um banco ambulante, sempre pronto a socorrer os necessitados, desde que sejam políticos influentes. É a prova de que, no Brasil, a amizade é um investimento de alto retorno, com juros que se pagam em favores e impunidade.

Fernando Collor e PC Farias, com a reforma da Casa da Dinda paga com “sobras de campanha” e a justificativa da amizade, são os precursores dessa linhagem de amigos imaginários que assombram a política brasileira.

No fim das contas, a “amizade” na política brasileira é um eufemismo para a promiscuidade, um disfarce para a corrupção, uma piada de mau gosto que se repete à exaustão. É a prova de que, neste país, a única coisa que realmente funciona é a capacidade de nossos políticos de transformar o vício em virtude, a falcatrua em favor, e a amizade em um crime sem castigo. E nós, o povo, somos a plateia cativa dessa tragicomédia, rindo para não chorar, ou chorando para não enlouquecer. Que país, meus amigos, que país!

E resta-me apenas uma constatação melancólica, quase existencialista: olho para o lado, para os meus próprios companheiros de jornada, e percebo que minha agenda é de uma mediocridade atroz. Falta-me esse “networking” de alto quilate. Meus amigos, esses pobres coitados, no máximo me oferecem uma cerveja morna ou um conselho furado. Ninguém me aparece com um sítio reformado, um anel de brilhantes ou um empréstimo de dois milhões para “pagar advogados”. Minhas amizades são reais demais, palpáveis demais, honestas demais para os padrões de Brasília. É o meu maior defeito: não ter amigos no mesmo nível desses semideuses do compadrio. Que inveja, meus caros, que inveja!

Bahia Mais Bahia Politica Rod Pereira
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