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Início » O Brasil está doente e a plateia aplaude de pé
COLUNAS POLÍTICA

O Brasil está doente e a plateia aplaude de pé

Por Rod Pereira
9 de janeiro de 2026
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O Brasil não está polarizado. Está em surto coletivo com transmissão ao vivo. Um país onde dois presidentes julgados e condenados por crimes continuam sendo tratados como líderes mais amados que Jesus. Um desfila com a aura do operário redentor. O outro posa de messias fardado do ressentimento. Ambos venerados por multidões dispostas a tudo. A discutir, a agredir, a destruir, a matar e, se preciso, a morrer. Isso não é engajamento político. É fanatismo de seita.

Em qualquer lugar civilizado, condenação encerra carreira. Aqui, inaugura romaria. Torcida organizada com verniz moral. Fiéis em êxtase, celulares erguidos, cérebro desligado. Fazem novena ideológica, jejum de senso crítico, promessa eleitoral e sacrifício ético. Política virou culto. Urna virou altar. Discordar virou blasfêmia punível com linchamento virtual ou coisa pior.

Lula e Bolsonaro já não governam. Possuem. Não lideram. Encarnam. São totens emocionais de um país que trocou pensamento por pertencimento. Um representa o passado que nunca foi tão bom. O outro, a revanche contra tudo o que exige civilidade. Ambos alimentam o mesmo vício nacional. A recusa em pensar.

E há quem ainda acredite no truque infantil da troca mágica. Muda o presidente, muda o partido, e pronto. Como se desigualdade, corrupção, violência, ignorância e atraso fossem arquivos que se deletam com um novo login no Planalto. Não são. Problemas estruturais não respeitam slogan, nem hashtag, nem camisa de time.

Essa crença não é ingenuidade. É pelo menos preguiça cívica. É a terceirização da responsabilidade. É o conforto de achar que alguém pensa por nós, decide por nós e erra por nós. Assim, quando tudo dá errado, a culpa é sempre do outro. Do sistema. Do inimigo imaginário. Nunca do espelho.

O mais obsceno não é a idolatria. É a seletividade moral. Crime vira detalhe se o criminoso confirma minha narrativa. Autoritarismo vira firmeza se aponta para o lado certo. Corrupção vira perseguição se o corrupto fala minha língua. Não queremos Justiça. Queremos vingança travestida de virtude.

A imprensa, as redes sociais e parte da elite intelectual também têm sua cota de culpa. Alimentam o circo, estimulam o conflito, transformam política em espetáculo de ódio porque isso dá clique, engajamento e relevância. O debate público virou ringue. A complexidade virou inconveniente. Pensar com nuance passou a ser visto como traição.

Enquanto isso, o cidadão comum vai sendo treinado a reagir, não a refletir. A odiar rápido, a julgar mal, a repetir slogans como mantras. A política deixa de ser instrumento de transformação e vira entretenimento tóxico. Um reality show permanente onde ninguém ganha e o país inteiro perde.

A política deixa de ser instrumento de transformação e vira entretenimento tóxico.
Um reality show permanente onde ninguém ganha e o país inteiro perde.
Foto: Reprodução/Agência Brasil

Democracia exige adulto. Exige frustração. Exige aceitar que ninguém é salvador da pátria. O Brasil, ao contrário, prefere a infantilização permanente. Política como desenho animado. Bem contra mal. Mocinho e vilão trocando de figurino conforme o gosto da torcida.

Enquanto isso, o país apodrece por dentro e aplaude por fora. E ainda chama isso de paixão política.

O Brasil não está dividido. Está doente. Gravemente. E o pior sinal da doença é esse sorriso cínico de quem acha tudo absolutamente normal.

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