
POR ROD PEREIRA |
Acordei com a notícia de que proibiram as bets. Confesso que gelei. Pensei imediatamente nos amigos da infância, nas tardes no meio da rua, nos dois pedaços de madeira improvisados como tacos e naquela pobre lata de óleo que passava horas sendo alvo de crianças sem qualquer respeito pelos direitos humanos das embalagens. Depois descobri que estavam falando de apostas online. Ah, bom. Essas outras bets. Porque as minhas não tinham aplicativo, Pix, bônus de boas-vindas nem a Virgínia dizendo que aquilo poderia mudar a sua vida enquanto alguma coisa muito bem iluminada brilhava ao fundo.
A minha bet era outra coisa. Em alguns lugares chamavam de taco, em outros de bets, bete, tacobol. Uma espécie de primo brasileiro, pobre e descalço, do cricket inglês. O cricket tinha uniforme branco, gramado impecável e cavalheiros britânicos tomando chá. Nós tínhamos bermuda suja, chinelo no meio-fio e uma lata de óleo vegetal de 900 ml servindo de wicket. O Império Britânico colonizou meio mundo. Nós pegamos o esporte deles e colocamos uma lata de soja no meio. Isso, sim, é independência cultural.
Aliás, é preciso explicar às novas gerações que o óleo vinha em lata. Lata de verdade. Metal. Depois que minha mãe usava o óleo, aquela embalagem iniciava uma segunda carreira: porta-treco, vaso, depósito de pregos ou equipamento esportivo. Naquele tempo chamávamos isso de pobreza. Hoje provavelmente seria vendido numa feira sustentável como design circular afetivo, por R$ 189,00.
O jogo era simples. Um jogador arremessava a bola tentando acertar a lata. O outro precisava rebater. Não havia capacete, joelheira, seguro ou termo de responsabilidade. Havia apenas quatro crianças, dois tacos, uma bolinha e a certeza absoluta de que nada poderia dar errado. Era justamente essa certeza que garantia que alguma coisa sempre desse.
Lembro de uma partida em que eu era o rebatedor. A bola veio, preparei o taco com a elegância de um profissional e desferi uma tacada memorável. Só não acertei a bola. Acertei a mão do meu colega. Não quebrou, mas saiu sangue. Hoje alguém chamaria o SAMU, fotografaria o ferimento, acionaria o seguro e abriria um grupo no WhatsApp chamado “Providências acidente Bet”.
Naquela época, chamamos a mãe dele.
Foi pior.
Ela apareceu, olhou a mão ensanguentada do filho e tomou a decisão pedagógica típica daqueles anos: bateu nele. Eu nunca compreendi completamente o raciocínio, mas funcionava assim. A criança sofria um acidente e recebia uma punição adicional por ter permitido que o acidente acontecesse. O ferimento dizia: “Você se machucou”. A mãe complementava: “E para aprender a não se machucar, vou machucar você mais um pouco”.
Mas ainda faltava o tratamento médico.
O Merthiolate.
As gerações atuais jamais compreenderão esse nome. O Merthiolate da nossa infância não era medicamento. Era um portal espiritual. Você tinha um pequeno arranhão e sua mãe dizia: “Vem cá que eu vou passar Merthiolate”. Naquele instante, você compreendia o conceito de eternidade. A ferida ardia, o remédio ardia, a alma ardia e provavelmente algum ancestral também sentia.
Era esse o nosso jogo de bet.
Não havia compulsão financeira, mas havia compulsão pela rua. Não perdíamos salário, perdíamos bolinha. Não havia algoritmo, havia o cachorro do vizinho. Não existia reconhecimento facial, mas dona Marlene reconhecia qualquer criança que chutasse a bola no jardim dela a cinquenta metros de distância. E não havia saque bloqueado. Havia coisa pior: a bola cair na casa do vizinho que já tinha avisado que, se caísse novamente, não devolveria.
A rua era estádio, parque, clube, praça, ponto de encontro e rede social. A diferença é que, quando alguém não gostava de você, não bloqueava. Dava uma bolada.
Hoje vejo cada vez menos crianças jogando taco. A rua ficou mais perigosa, os carros maiores, os apartamentos menores e as telas ocuparam aquele espaço que antes pertencia à calçada. A criança contemporânea pode jogar contra alguém na Coreia sem sair do quarto, mas talvez nunca descubra a emoção de fugir porque a bola entrou na garagem de um vizinho particularmente desequilibrado.
Há nisso uma ironia deliciosa.
Passamos décadas retirando as crianças das ruas porque as ruas eram perigosas. Colocamos todas dentro de casa para protegê-las. Depois entregamos um celular conectado à internet e dissemos:
“Agora você está seguro”.
Genial.
Por isso, quando li que estavam proibindo as bets, minha memória não foi para plataformas, odds ou apostas esportivas. Foi para aquela lata de óleo. Para o barulho seco da bolinha no taco. Para as discussões sobre se valeu ponto. Para aquela extraordinária instituição jurídica infantil chamada “essa regra não vale porque a gente não combinou antes”.
Sobre as apostas digitais, deixo a legislação, a economia e os especialistas travarem sua discussão. Ainda bem que ninguém está atrás de quatro crianças armadas com pedaços de madeira numa rua de bairro.
Porque seria humilhante chegar a esta idade e descobrir que passei a infância envolvido com bet ilegal.
Imaginem a operação.
Polícia chegando à rua.
“Larguem os tacos!”
Quatro crianças correndo.
A apreensão: dos pedaços de madeira, uma bolinha de tênis careca, muitas vezes substituída por uma boa de meia e duas latas de óleo Soya.
Na delegacia, o delegado perguntaria:
“Quem organiza o esquema?”
E todos apontariam para o Carlinhos.
Carlinhos sempre organizava.
Talvez a grande diferença entre aquelas bets e as de agora esteja no significado da palavra perder. Quando perdíamos uma partida, perdíamos a partida. Cinco minutos depois começava outra. Às vezes havia briga, acusação de roubo e rompimentos diplomáticos que duravam aproximadamente onze minutos.
Depois alguém dizia:
“Valendo dez?”
E a amizade internacional era restabelecida.
Não havia dinheiro envolvido. O patrimônio máximo em risco era uma bolinha. Talvez por isso aquele jogo ensinasse algo que nenhum aplicativo consegue colocar nos termos de uso: ganhar era ótimo, perder era suportável e brincar era mais importante do que as duas coisas.
Então podem discutir as bets modernas à vontade.
Só peço cautela linguística.
Porque antes de bet significar plataforma, odds, bônus e aposta esportiva, bet também foi rua, taco, lata, gritaria, joelho ralado e infância.
E dessas bets eu ainda sinto saudade.
Especialmente porque naquela época a casa também ganhava sempre.
Só que a casa era a da nossa mãe.
E quando ela gritava da janela:
“ENTRA, QUE JÁ ESCURECEU!”
não existia recurso, liminar, bônus, odd ou prorrogação.
A partida acabava na hora.

