POR ROD PEREIRA |
Ah, Santa Cruz Cabrália! Um nome que evoca brisas marinhas, a história do descobrimento e, agora, uma certa perplexidade. Não que a política brasileira seja um primor de lógica, mas há momentos em que a realidade supera a mais delirante das ficções. E eis que o prefeito Girlei Lage, com a sabedoria peculiar dos nossos gestores, nos brinda com mais um desses espetáculos tragicômicos.
O palco é a prefeitura, o enredo, a nomeação de Uberlândio. Não apenas para a Secretaria de Esportes o que, por si só, já seria um capítulo à parte, mas num golpe de mestre da multifuncionalidade, também respondendo interinamente como secretário Turismo e Cultura. É como escalar um goleiro para ser o centroavante, o zagueiro e, de quebra, o técnico do time. Uma indicação que, para ser gentil, poderíamos chamar de… irresponsável. Mas a gentileza, neste caso, seria uma ofensa à inteligência.
Cabrália, meus caros, não é um vilarejo qualquer. É um destino turístico. Um lugar que respira história, que exala cultura, que tem no seu DNA a vocação para encantar. E para gerir essa joia, já tivemos nomes que entendiam do riscado: Guto Jones, Patrícia Martins, Marcel Kemphs, e na própria gestão de Girlei, o competente Geo Magno. Gente que sabe que turismo não é apenas um jogo de bola, e cultura não é um campeonato de dominó. Eles compreendiam as engrenagens, os fluxos, as nuances de um setor que exige visão, sensibilidade e, acima de tudo, conhecimento.
Mas agora? Agora temos Uberlândio. E a pergunta que paira no ar, como uma nuvem de incerteza sobre o sol de Cabrália, é: o que ele sabe sobre as complexas tramas do turismo? Qual a sua conexão com a riqueza cultural que pulsa nas ruas, nas tradições, na alma deste povo? Aparentemente, a resposta é um silêncio ensurdecedor. É a aposta no amadorismo onde se exige profissionalismo, na improvisação onde se clama por planejamento.
E o descaso não para por aí. Veja o caso de Andreza Anjos. Uma profissional da Cultura que passou um ano à frente da Secretaria de Cultura, debruçada sobre a árdua tarefa de montar o sistema municipal de cultura, estruturando o que era desejo e necessidade em política pública. E qual a recompensa? O rebaixamento. Andreza agora é superintendente, subordinada a uma estrutura que parece ignorar o valor do trabalho técnico e da continuidade. É a meritocracia às avessas, onde o esforço é punido com a perda de espaço.
O prefeito Girlei, com esses movimentos erráticos, consegue um feito notável: já começa a produzir, em tempo recorde, uma inesperada saudade da gestão de Agnelo Santos. Quem diria? A política, essa senhora irônica, nos mostra que o “novo” pode ser apenas um retorno ao que há de mais arcaico na indicação política. Santa Cruz Cabrália merece mais do que a aposta no desconhecido e o desprezo pelo que foi construído. Merece gestores que compreendam a sua essência, que valorizem o seu potencial, que respeitem a sua história e o seu futuro. Ou será que, na prefeitura, o turismo e a cultura são apenas figurantes em um espetáculo onde o verdadeiro protagonista é o jogo de cadeiras e a conveniência do momento? A resposta, infelizmente, parece estar escrita nas entrelinhas desta gestão, com tinta invisível, mas com consequências bem visíveis para a nossa querida Cabrália.


