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Início » A fantástica pobreza de Érika Hilton
COLUNAS POLÍTICA

A fantástica pobreza de Érika Hilton

8 de agosto de 2026
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POR ROD PEREIRA |

O Brasil é realmente um país de milagres. Temos santo que chora, político que não sabe quem depositou dinheiro em sua conta e, agora, aparentemente, descobrimos uma nova modalidade de ascetismo: o parlamentar que recebe mais de R$ 46 mil brutos por mês, vive quatro anos em Brasília e consegue terminar o mandato mais pobre do que começou. A façanha pertence à deputada federal Érika Hilton, do PSOL, que informou à Justiça Eleitoral possuir patrimônio de exatos R$ 15.975,73. Em 2022, quando foi eleita, declarava R$ 19.989,96. Ou seja, depois de quase quatro anos de Câmara dos Deputados, seu patrimônio declarado encolheu aproximadamente 20%. Não é pouca coisa. Na verdade, no caso dela, pouca coisa é justamente a coisa toda. 

Érika recebe atualmente R$ 46.366,19 de salário bruto mensal como deputada federal. A remuneração líquida informada pela imprensa, considerados os descontos obrigatórios, gira em torno de R$ 33,8 mil. A própria Câmara informa ainda que a parlamentar não utiliza imóvel funcional e recebeu R$ 25.518 de auxílio-moradia em 2026 até o momento. Portanto, em linguagem compreensível para quem não domina as misteriosas artes da contabilidade eleitoral, Érika ganha em quinze dias mais dinheiro do que todo o patrimônio que diz possuir. 

E antes que alguém convoque imediatamente o tribunal das redes sociais e transforme qualquer pergunta numa conspiração ideológica, convém esclarecer: não existe, apenas nesses números, qualquer prova de ilegalidade. Salário não é patrimônio. Uma pessoa pode ganhar R$ 30 mil, R$ 50 mil ou R$ 100 mil e gastar tudo. Pode sustentar família, pagar aluguel, ajudar amigos, comprar roupas, viajar, comer bem e chegar ao fim do mês com a conta bancária tão deprimida quanto a do brasileiro médio no dia 25. É perfeitamente possível. E Érika Hilton está submetida à mesma regra de declaração patrimonial que os demais candidatos. Nem mais, nem menos.

Aliás, esse ponto é fundamental. Não me interessa aplicar a Érika uma régua que não seja aplicada a Bolsonaro, Lula, Flávio, Boulos, Caiado, Zema ou qualquer outro político. Se a declaração eleitoral de bens permite determinadas formas de apresentação patrimonial, permite para todos. Se é insuficiente, é insuficiente para todos. Se é transparente, é transparente para todos. A República não deveria mudar de régua conforme a camiseta ideológica de quem está sendo medido.

O problema de Érika é outro. É que Érika passou boa parte de sua ascensão política vendendo justamente a ideia de renovação. Em 2022, em entrevista publicada após sua eleição, defendia a “renovação da forma de fazer política”. Em 2025, voltou a cobrar da esquerda capacidade de renovação. Ela construiu sua imagem pública como expressão de uma política nova, diversa, moderna, insurgente contra os velhos padrões. E aí mora a ironia: quando chega a hora da declaração patrimonial, a nova política descobre que a velha regra serve perfeitamente.

Nada errado nisso. Apenas deliciosamente convencional.

É como abrir um restaurante revolucionário, desconstruído, antissistema e descobrir que, na hora de pagar a conta de luz, a Enel continua aceitando PIX.

A declaração de Érika é quase uma obra de minimalismo financeiro. Dos R$ 15.975,73 informados em 2026, R$ 13.602,14 estão numa conta da Caixa Econômica Federal, R$ 1.745 em renda fixa no Nubank, R$ 329,03 no Tesouro Direto e R$ 299,56 em RDB. Não aparecem imóveis nem veículos na relação divulgada. É uma carteira patrimonial tão enxuta que Marie Kondo provavelmente perguntaria se não exageraram na arrumação.

A deputada reagiu à repercussão explicando que ajuda a família, apoia pessoas próximas, paga dívidas e utiliza seus rendimentos para manter sua vida. Nada extraordinário nisso. O detalhe maravilhoso veio quando acrescentou à explicação seu “bom gosto pra se vestir”. E aqui Érika merece ao menos crédito pela coerência estética. Ela nunca escondeu sua relação com a moda. Em entrevista sobre o tema, afirmou que ama moda, que a utiliza como linguagem política e que estar “bem ornamentada” representa afirmação, segurança e possibilidade. Para ela, a própria roupa pode integrar o fazer político. (Terra)

Ótimo. Finalmente chegamos a uma teoria econômica capaz de explicar tudo: o dinheiro não desapareceu. Virou conceito.

O problema é que o conceito veste muito bem.

A imagem pública de Érika é cuidadosamente construída. Roupas sofisticadas, acessórios, eventos, viagens e uma estética muito distante da simplicidade franciscana. E não existe absolutamente nenhum pecado nisso. Político não fez voto de pobreza. Deputada não precisa trabalhar de sandália de couro cru, vestir saco de farinha e chegar ao Congresso montada num jumento para demonstrar compromisso com os trabalhadores. Érika pode gostar de moda, viajar, consumir, vestir-se como quiser e gastar o próprio dinheiro como bem entender.

Aliás, ela própria transformou isso em parte de sua identidade política. O curioso surge quando essa imagem pública encontra uma declaração patrimonial de quinze mil reais. O problema não é a roupa. É a matemática.

Porque aí o brasileiro comum, essa criatura antiquada que ainda acredita que patrimônio tem alguma relação com aquilo que conseguimos acumular ao longo da vida, olha para os números e começa a fazer conta. Péssimo hábito. Matemática sempre foi uma inimiga terrível da política.

E então chega a frase mais interessante da explicação de Érika: seria impossível enriquecer na política sendo honesta, sendo arrimo de família e tendo bom gosto para se vestir.

Calma lá.

Aqui aparece um daqueles truques retóricos que passam sorrindo pela porta enquanto ninguém está olhando. Honestidade não é sinônimo de pobreza. Da mesma forma que riqueza não constitui automaticamente prova de corrupção. Um parlamentar que recebe um salário elevado, poupa parte dele, investe e termina quatro anos depois com patrimônio maior não se tornou desonesto por isso. Pode ter feito algo revolucionário chamado planejamento financeiro.

Se aceitarmos a lógica inversa, chegaremos à conclusão extraordinária de que quanto mais pobre sair um político do mandato, mais honesto ele foi. Nesse caso, talvez devêssemos substituir a Controladoria-Geral da União por uma consulta ao Serasa.

E aqui reside a parte mais divertida dessa história. Érika chegou à política como símbolo de renovação. Moderna, disruptiva, representante de uma nova geração, crítica às estruturas tradicionais e defensora de uma nova maneira de ocupar o poder. Tudo legítimo. Mas eis que o poder tem um fenômeno curioso: depois de algum tempo, a “nova política” começa a descobrir as comodidades administrativas da antiga.

A direita faz. A esquerda faz. O centro faz. O conservador faz. O progressista faz. Todos apresentam suas declarações segundo a mesma legislação, utilizam as mesmas estruturas parlamentares, recebem o mesmo subsídio e usufruem das prerrogativas previstas para o mandato. O sistema possui uma impressionante capacidade de transformar revolucionários em usuários satisfeitos do regulamento.

Isso não torna Érika corrupta. Tampouco significa que tenha escondido bens. Não existe, até aqui, elemento suficiente para fazer qualquer dessas afirmações, e fazê-las seria irresponsável.

Mas impede que o discurso da excepcionalidade passe sem perguntas.

Porque quando você constrói sua carreira afirmando representar uma renovação na maneira de fazer política, aceita implicitamente uma cobrança adicional de coerência. Quem diz “somos diferentes” não pode ficar ofendido quando alguém pergunta: diferentes exatamente em quê?

Talvez seja esse o verdadeiro assunto desta história.

Não os quinze mil reais.

Não a roupa.

Não a moda.

Nem mesmo o salário.

É a velha mania brasileira de transformar político em categoria moral. O meu político é diferente. O meu político é puro. O meu político não faz aquilo. O meu político veio para mudar tudo. Até que chegam Brasília, o gabinete, o salário, o auxílio, as regras, a eleição seguinte e aquela extraordinária descoberta de que o sistema anteriormente condenado possui também algumas funcionalidades bastante confortáveis.

Érika Hilton talvez esteja dizendo rigorosamente a verdade sobre seu patrimônio. Os R$ 15.975,73 podem representar exatamente aquilo que possui nos termos exigidos pela declaração eleitoral. Se for assim, nenhuma irregularidade existe.

Mas permanece uma pergunta deliciosa.

Depois de quatro anos recebendo um dos maiores salários pagos pelo Estado brasileiro, uma parlamentar chega à eleição seguinte declarando menos patrimônio do que possuía quando entrou.

Isso pode ser perfeitamente legal. Pode ser absolutamente verdadeiro. Pode estar rigorosamente dentro das regras. Só não venham chamar isso de nova política.

É a velha política. Só mudou o figurino.

Érika Hilton nacional Politica Rod Pereira
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