REDAÇÃO | MAIS BAHIA |
A corrida presidencial de 2026 expõe um contraste contraditório no Brasil. Enquanto as redes sociais registram picos de engajamento movidos por escândalos e embates institucionais, o eleitorado real vive sob uma sensação de anestesia. Trata-se de um “burnout cívico”, onde a eleição parece distante do cotidiano e destituída de entusiasmo populares.
Pesquisas recentes da Quaest confirmam essa retração: cerca de 66% dos brasileiros demonstram desinteresse pelo pleito. O enfado acumulado após anos de forte polarização fez com que 69% dos eleitores rejeitassem posicionamentos radicais. Com o sentimento de apatia predominando, a definição do voto tem sido sistematicamente empurrada para a reta final ou para o próprio dia da eleição.

O sequestro da pauta pelo STF
O debate sobre propostas concretas para o país — como economia, saúde ou crise climática — foi suplantado pela judicialização da política. A pauta pública está sequestrada pelos desdobramentos da crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF), intensificada pelas trocas de acusações públicas entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no contexto das investigações do “Caso Master”. Como os holofotes se concentram em dossiês, vazamentos e ameaças de impeachment, a disputa presidencial perdeu a centralidade programática.
Simultaneamente, a disputa travada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro é descrita por analistas como uma “batalha de rejeições”. Ambas as candidaturas enfrentam índices de desaprovação na casa dos 50%. Movido mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão a um projeto, o eleitorado não demonstra engajamento espontâneo. Além disso, a força financeira dos partidos migrou para as bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado, esvaziando a estrutura das campanhas de rua tradicionais.
| Indicador Político | Percepção e Comportamento do Eleitorado |
| Engajamento de Rua | Baixo e apagado; escassez de mobilização espontânea nas cidades. |
| Foco do Debate | Judicializado; dominado por crises institucionais e embates do STF. |
| Decisão de Voto | Adiada; parcela expressiva prefere definir a escolha na reta final. |
| Sentimento Dominante | Apatia, fadiga política e predomínio de votos por rejeição. |
A invisibilidade dos R$ 4,96 bilhões do Fundo Eleitoral
A ausência de bandeiras nas ruas contrasta com o montante recorde aprovado para o Fundo Eleitoral de 2026: R$ 4,96 bilhões. O dinheiro não desapareceu, mas teve sua aplicação reestruturada. A migração dos recursos para o ambiente digital e para estruturas jurídicas ocultou o investimento aos olhos do público geral.

Fatores técnicos da mudança do financiamento:
- Hipercentralização nas cúpulas: Sem a doação de empresas, o Fundo Eleitoral é depositado integralmente nas contas nacionais dos partidos. As direções repassam as verbas majoritariamente a candidaturas prioritárias ou “puxadores de voto”, deixando postulantes de base com repasses residuais.
- Prevalência do marketing digital: O orçamento antes destinado a contratações locais migrou para a contratação de agências de dados e impulsionamento pago em plataformas como Meta e Google. A compra de mídia é direcionada por micro-segmentação algorítmica, de modo que os anúncios chegam apenas aos perfis mapeados como estratégicos, permanecendo invisíveis para o restante da população.
- Blindagem jurídica e contábil: Diante do rigor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no julgamento de contas, parcelas relevantes dos fundos são alocadas em grandes bancadas de advocacia e auditorias para evitar a cassação de mandatos por falhas formais.
- Rastreabilidade e fim do dinheiro em espécie: A obrigatoriedade de transações 100% eletrônicas (TED e Pix) vinculadas a CNPJs encerrou a circulação de recursos em espécie que movimentava o comércio local durante os períodos eleitorais.
Apurações, repasses e o avanço da vaquinha virtual
Em agosto de 2026, operações da Polícia Federal passaram a apurar suspeitas de desvios de recursos do Fundo Eleitoral por meio de repasses a empresas sem capacidade operacional comprovada, contratadas para serviços de consultoria e análise de dados.

A distribuição concentrada beneficia legendas com maior representação: PL, PT e União Brasil administram juntos 41% de todo o fundo público (cerca de R$ 2 bilhões). A centralização dos repasses nos cabeças de chapa faz com que candidaturas proporcionais de menor porte dependam do financiamento coletivo (crowdfunding) para custear despesas básicas.
O modelo atual de financiamento público substituiu a presença física das campanhas nas ruas por estratégias focadas em telas, gerenciamento de dados e representação jurídica. O resultado é um cenário eleitoral de alto custo financeiro, mas com baixa percepção de engajamento junto ao eleitorado.


