
POR ROD PEREIRA |
O Brasil precisa urgentemente rever seus manuais de educação financeira. Durante décadas ensinaram ao cidadão que patrimônio se constrói com trabalho, disciplina, poupança, investimento e uma quantidade considerável de paciência. Nikolas Ferreira parece ter descoberto uma metodologia um pouco mais dinâmica. Em 2022, quando disputou uma vaga para deputado federal, declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 36.820,46. Quatro anos depois, chega à eleição de 2026 declarando R$ 3.898.456,67 em bens. É um crescimento superior a 10.400%. Se existe um curso explicando o método, seria interessante conhecer pelo menos a primeira aula.
Enquanto o brasileiro comum passa quatro anos tentando fazer R$ 36 mil virarem R$ 40 mil depois que supermercado, aluguel, IPVA, plano de saúde, escola, gasolina e cartão de crédito terminam de negociar entre si qual deles ficará com o dinheiro, Nikolas conseguiu multiplicar seu patrimônio declarado por aproximadamente 105. É um desempenho que merece respeito. Warren Buffett construiu sua reputação ao longo de décadas; Nikolas aparentemente precisou de apenas uma legislatura. Talvez a Faria Lima esteja procurando talentos nos lugares errados. Em vez de Harvard, Insper e Fundação Getulio Vargas, talvez seja hora de acompanhar com mais atenção os corredores da Câmara dos Deputados.
Antes que alguém confunda ironia com denúncia, convém estabelecer um ponto essencial: não existe, até o momento, elemento público que permita afirmar que essa evolução patrimonial seja ilegal. Enriquecer não é crime, comprar imóvel não é crime, investir não é crime e ganhar dinheiro fora do mandato parlamentar também não é crime, desde que dentro da legalidade. Felizmente é assim. Caso contrário, Brasília talvez precisasse construir um complexo penitenciário com plenário, restaurante, chapelaria e estacionamento para carro oficial. Portanto, o assunto aqui não é criminal. É matemático, político e, convenhamos, bastante curioso.
Nikolas apresentou explicações. Parte relevante dos quase R$ 3,9 milhões corresponde a um imóvel declarado por aproximadamente R$ 2,23 milhões, adquirido mediante financiamento e ainda acompanhado de um expressivo saldo devedor. Isso significa que seria incorreto apresentar os quase quatro milhões como patrimônio líquido disponível, como se o deputado estivesse sentado sobre uma montanha de dinheiro decidindo se compra um iate ou passa o fim de semana em Dubai. Não é disso que estamos falando. O imóvel possui dívida, financiamento existe e a matemática precisa considerar isso. Mas, feita toda essa ressalva, há uma informação inconveniente que continua de pé: em 2022 eram R$ 36 mil e, em 2026, são quase R$ 3,9 milhões declarados em bens.
Além do imóvel, aparecem investimentos, aplicações financeiras, títulos, fundos, ações e participações empresariais. É reconfortante perceber que o jovem parlamentar levou a sério aquele conselho dado pelos especialistas de finanças pessoais: nunca coloque todos os ovos na mesma cesta. Enquanto milhões de brasileiros passaram os últimos anos aprendendo a diferença entre cheque especial e rotativo do cartão porque foram obrigados pela experiência prática, Nikolas aparentemente avançou para conteúdos mais sofisticados, como diversificação, renda fixa, mercado financeiro e composição patrimonial. É bonito observar a juventude brasileira adquirindo educação financeira. Principalmente quando a velocidade do aprendizado é tão impressionante.
Também existe, naturalmente, o salário parlamentar. Nikolas assumiu como deputado federal em fevereiro de 2023 e passou a receber uma remuneração que definitivamente não pertence à categoria dos rendimentos que exigem miojo no final do mês. Em 2026, o subsídio mensal de um deputado federal está na faixa dos R$ 46 mil. É um belo salário e seria até deselegante fingir que não é. Porém, receber muito bem não significa automaticamente transformar algumas dezenas de milhares de reais em um patrimônio declarado próximo de quatro milhões em apenas quatro anos. Se o salário parlamentar, sozinho, produzisse esse resultado, teríamos uma concentração impressionante de gênios das finanças usando broche no paletó.
A explicação apresentada por Nikolas passa também por outras fontes de renda. Sua equipe afirma que ele recebe valores provenientes de livros, cursos, palestras, investimentos e participação empresarial, tudo, segundo a versão divulgada, devidamente declarado. E talvez seja exatamente aqui que surja uma das grandes lições econômicas do nosso tempo: o verdadeiro petróleo brasileiro pode ser a audiência. Primeiro você conquista seguidores, depois transforma seguidores em engajamento, engajamento em influência, influência em produtos, produtos em cursos, livros e palestras e, finalmente, tudo isso em patrimônio. Não há nada necessariamente errado nisso. Pelo contrário, é o capitalismo digital funcionando com invejável eficiência.
O detalhe saboroso é que Nikolas Ferreira construiu boa parte de sua identidade política justamente como um combatente do sistema. Brasília seria o território dos privilégios, das mordomias, da velha política, das elites acomodadas e das estruturas que precisavam ser enfrentadas por uma nova geração. Nikolas chegou disposto a combater esse mundo. Acontece que o mundo combatido parece não ter levado a hostilidade para o lado pessoal. Quatro anos depois, o jovem antissistema aparece com patrimônio declarado mais de cem vezes superior ao informado antes de ingressar na Câmara. Se isso é uma guerra contra o sistema, o sistema parece estar oferecendo excelentes condições de armistício.
Talvez seja necessário atualizar o conceito de político antissistema. Antigamente, imaginava-se que o sujeito antissistema pretendia permanecer do lado de fora, destruir as estruturas ou, no mínimo, manter alguma distância delas. A versão contemporânea é mais sofisticada: entra no sistema, recebe o salário do sistema, ocupa os espaços do sistema, constrói audiência a partir do combate ao sistema, monetiza essa audiência e continua dizendo diariamente que o sistema é uma desgraça. É quase um modelo de negócios. Podemos chamar de antissistema premium, versão completa, com mandato, alcance nacional, investimentos e benefícios incluídos.
E antes que a militância digital comece a redigir sentença, recurso e pedido de prisão do autor deste artigo, volto a registrar: não estou acusando Nikolas Ferreira de corrupção, enriquecimento ilícito, ocultação patrimonial ou qualquer outro crime. Não existem, nos elementos aqui tratados, fundamentos para fazer essa afirmação. Estou praticando algo consideravelmente mais simples e que, nos tempos atuais, parece provocar quase o mesmo nível de indignação: estou comparando números. De um lado, R$ 36.820,46. Do outro, R$ 3.898.456,67. A calculadora, esse perigoso instrumento ideológico, informa que existe entre eles uma diferença considerável.
O interessante é observar como a política brasileira criou uma ciência econômica própria, cuja interpretação depende menos dos números do que do político envolvido. Quando o patrimônio pertence ao adversário, imediatamente surgem especialistas querendo saber quem vendeu, quem comprou, de onde veio, quando entrou, quanto custou, quem financiou e até quem pintou a parede da sala. Quando números igualmente curiosos aparecem no próprio campo político, ocorre um milagre intelectual: todos descobrem simultaneamente valorização imobiliária, renda variável, empreendedorismo, fundos de investimento, juros compostos e atividade empresarial. A mesma cifra que ontem era escândalo passa hoje a ser prova de competência financeira. No Brasil, até a matemática parece precisar declarar voto.
É justamente por isso que o caso de Nikolas é tão interessante quando colocado ao lado de Érika Hilton. Com Érika, a curiosidade estava em uma parlamentar que recebe remuneração elevada e apresentou patrimônio declarado surpreendentemente baixo. Com Nikolas, temos o fenômeno praticamente inverso: entrou na eleição de 2022 com patrimônio relativamente modesto e chega quatro anos depois próximo da casa dos quatro milhões em bens declarados. Um caso é a fantástica pobreza. O outro é a fantástica prosperidade. Brasília, aparentemente, oferece experiências financeiras bastante personalizadas aos seus moradores.
E seria injusto não reconhecer a oportunidade pedagógica. Se a metodologia for reproduzível, Nikolas poderia prestar um enorme serviço ao país lançando um novo produto: “Dos R$ 36 mil aos R$ 3,9 milhões: como prosperar em uma legislatura”. O curso poderia começar ensinando como conquistar audiência, depois apresentar técnicas de monetização, seguir para investimentos e terminar com um módulo especial chamado “como continuar combatendo o sistema depois que ele começou a lhe fazer muito bem”. Imagino filas para inscrição. Dependendo do preço, talvez o próprio Ministério da Fazenda pudesse comprar algumas licenças e distribuir à população.
Nada disso prova ilegalidade. Nada disso autoriza acusação criminal. Nikolas oferece explicações para sua evolução patrimonial, e elas devem ser registradas porque uma crítica séria não precisa esconder o contraditório para funcionar. Mas a existência de uma explicação não torna os números menos interessantes. Um político que saiu de aproximadamente R$ 36 mil declarados para quase R$ 3,9 milhões em quatro anos naturalmente desperta curiosidade, sobretudo quando construiu sua imagem pública atacando os privilégios, as vantagens e as distorções produzidas pela própria estrutura política em que passou a atuar.
Nikolas Ferreira chegou a Brasília prometendo enfrentar o sistema, denunciar seus excessos e demonstrar que uma nova geração poderia fazer política de maneira diferente. Quatro anos depois, pode continuar fazendo todos esses discursos, e provavelmente continuará. Mas existe uma pequena dificuldade narrativa esperando na declaração de bens: enquanto ele combatia o sistema, seu patrimônio declarado cresceu mais de cem vezes.
Pode ser que o sistema continue sendo realmente péssimo.
Só parece que, para Nikolas, ele oferece um excelente plano de prosperidade.

