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A Academia de Letras de Porto Seguro realizou, na noite de sexta-feira, 28 de agosto, no CEMPEC, o 1º Encontro de Línguas Indígenas, Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS). Coordenado pela acadêmica, professora e pesquisadora Adriana Pesca Pataxó, o evento reuniu pesquisadores indígenas, acadêmicos e comunidade em torno da retomada linguística do povo Pataxó e do fortalecimento das línguas indígenas como instrumentos de identidade, memória, produção intelectual e resistência cultural.
Na abertura, o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, Rod Pereira, destacou o caráter histórico da iniciativa e o compromisso da instituição em construir, ao lado do povo Pataxó, novos espaços de diálogo, pesquisa, literatura e valorização dos saberes originários. Em sua fala, ressaltou especialmente a importância de a Academia contribuir para o processo de reavivamento e fortalecimento do Patxohã, reconhecendo na língua um dos principais elementos de preservação da memória, da identidade e da ancestralidade Pataxó.
Rod Pereira também ressaltou que a aproximação entre a Academia e os povos originários deve ultrapassar a realização de eventos pontuais e avançar para uma atuação conjunta e permanente, capaz de estimular novas pesquisas, produções literárias, ações educativas e iniciativas voltadas à preservação da língua e da cultura Pataxó.
Na sequência, o acadêmico Carleone Filho falou sobre a importância da língua materna como elemento estruturante da identidade de um povo. Durante sua participação, abordou ainda a existência da Carta de Pero Vaz de Caminha escrita em Patxohã, atualmente em Portugal, estabelecendo uma reflexão simbólica entre um dos documentos mais conhecidos da história brasileira e a língua do povo originário que já habitava o território antes da chegada dos portugueses.

Logo depois, sob a condução de Adriana Pesca Pataxó, os presentes participaram de um momento de reverência ancestral, com uma prece realizada em Patxohã. A cerimônia marcou um dos momentos mais simbólicos da noite, colocando a ancestralidade e a língua materna no centro do encontro.
Idealizado e coordenado por Adriana Pesca Pataxó, o encontro foi construído a partir do protagonismo dos próprios pesquisadores indígenas, colocando suas vozes, experiências e produções no centro do debate sobre a retomada e o fortalecimento das línguas originárias.
Do risco de desaparecimento ao reavivamento do Patxohã
O pesquisador Awoy Pataxó apresentou ao público sua trajetória de pesquisa sobre a retomada linguística do povo Pataxó e explicou como ocorreu o processo de recuperação de uma língua que esteve muito próxima de desaparecer.
Durante sua exposição, Awoy abordou o trabalho desenvolvido a partir do movimento de retomada do Patxohã e mostrou como pesquisadores, educadores e comunidades passaram a recuperar palavras, conhecimentos e referências transmitidas entre gerações.
Segundo o pesquisador, esse processo permitiu reconstruir progressivamente um repertório linguístico que atualmente reúne cerca de quatro mil vocábulos, além de contribuir para que o Patxohã voltasse a ser falado, ensinado e utilizado em diferentes aldeias Pataxó.
A pesquisa demonstra que a retomada da língua ultrapassa a dimensão linguística. Trata-se também de um processo de reconstrução da memória coletiva, fortalecimento da identidade e reconexão entre diferentes gerações do povo Pataxó.
A presença do Patxohã nas escolas indígenas, nas manifestações culturais, na produção autoral e no cotidiano das comunidades evidencia a transformação de uma língua que esteve ameaçada de desaparecimento em um instrumento vivo de afirmação cultural.

próprios pesquisadores indígenas.
Língua indígena de sinais e a relação com a natureza
Na sequência, o pesquisador David Kaique Pataxó Hãhãhãe apresentou seus estudos sobre as Línguas Indígenas de Sinais (LIS) e sobre a Língua Indígena Pataxó de Sinais.
Durante sua explanação, David mostrou como a construção dos sinais está profundamente relacionada à maneira como os povos indígenas observam e interpretam o mundo ao seu redor.
A mata, os animais, os movimentos da natureza e diversos elementos presentes no cotidiano das comunidades servem como referências para a construção de sinais, revelando uma lógica linguística profundamente vinculada ao território, à cultura e à experiência indígena.
O pesquisador também apresentou aos participantes sua trajetória de investigação sobre as línguas indígenas de sinais e ofereceu um amplo panorama sobre sua presença, desenvolvimento e aplicação, tanto na região quanto em outras partes do Brasil.
Sua apresentação também contribuiu para ampliar a compreensão sobre as línguas indígenas de sinais para além da questão da acessibilidade, demonstrando que elas carregam elementos próprios de identidade, cultura e formas específicas de compreensão do mundo.


Poesia, língua e sinais encerram o encontro
Ao final do evento, Adriana Pesca Pataxó recitou um poema enquanto David Kaique Pataxó Hãhãhãe realizou simultaneamente o acompanhamento em sinais.
A apresentação reuniu literatura, oralidade, expressão corporal e língua indígena, sintetizando artisticamente as discussões realizadas durante toda a noite.
O momento demonstrou, na prática, a capacidade da língua de se transformar, dialogar com diferentes formas de expressão e continuar produzindo conhecimento, memória e identidade.
Com a realização do primeiro encontro, a Academia de Letras de Porto Seguro amplia sua interlocução com os saberes e com a produção intelectual dos povos originários, criando um espaço institucional em que pesquisadores, professores e autores indígenas possam ocupar o centro das discussões sobre suas próprias línguas, histórias e processos de retomada.




A iniciativa também reforça uma nova frente de atuação da Academia, aproximando literatura, pesquisa, educação e ancestralidade e contribuindo para a valorização de uma das matrizes culturais mais importantes da formação histórica de Porto Seguro.
Mais do que um encontro acadêmico, a noite de 28 de agosto representou um gesto de reconhecimento e aproximação. Em um território profundamente marcado pela presença Pataxó, o evento reafirmou que a cultura indígena não pertence apenas ao passado histórico de Porto Seguro.
Ela permanece viva, produz conhecimento, literatura, língua e identidade no presente e continua sendo parte fundamental da construção do futuro do território.

































