REDAÇÃO | MAIS BAHIA| POR ALPS |
A escritora, professora e pesquisadora Adriana Pesca Pataxó tomou posse, na noite de 13 de agosto, como membro vitalício da Academia de Letras de Porto Seguro, tornando-se a primeira representante dos povos originários a tomar posse em uma Academia de Letras no Estado da Bahia.
A Sessão Solene, realizada no Centro de Cultura de Porto Seguro, teve o cerimonial conduzido por Fábio Del Porto e reuniu literatura, tradição acadêmica e ancestralidade Pataxó. Adriana passa a ocupar a Cadeira nº 30, que tem como patrona Urânia Vanério.
A cerimônia teve início com a execução do Hino de Porto Seguro, interpretado pela Banda Filarmônica Terra Mater, sob a regência de Ronald Magnavita Filho. Em seguida, foram cumpridos os ritos acadêmicos que antecederam a entrada da nova integrante da instituição.
Um dos momentos mais simbólicos da noite ocorreu justamente na chegada de Adriana. Sua entrada foi antecedida por um cortejo, oração e bênção Pataxó realizados pelo Grupo Tapurumã Ui Iquirrã, do Colégio Estadual Indígena de Coroa Vermelha, levando ao interior do teatro a espiritualidade, a memória e a ancestralidade de seu povo.
Adriana foi conduzida até o palco pelos acadêmicos Éder Rodrigues, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e um dos grandes apoiadores de sua chegada à instituição, e Ciro de Lopes e Barbuda, procurador da Funai em Porto Seguro.
Durante a solenidade, o Grupo Tapurumã Ui Iquirrã retornou ao palco para a realização do Auê, cerimônia que reverencia a união, a harmonia e a espiritualidade do povo Pataxó.

Para Adriana, a posse ultrapassa o significado individual da ocupação de uma cadeira acadêmica e representa a abertura de um espaço para outras vozes e narrativas dos povos originários.
“Ocupar a Academia de Letras de Porto Seguro, para mim, foi um momento de extrema importância para a demarcação de um espaço literário que considero indispensável e que, embora esteja em um território nativo de povos originários, ainda não tinha como membro da Casa uma pessoa indígena. Ser mulher indígena nesse contexto é muito mais do que ocupar uma cadeira; é a retomada de um espaço, a demarcação de um lugar onde as vozes coletivas dos povos originários poderão ser contadas por eles mesmos. Vivi um momento pessoal, mas, acima de tudo, coletivo, de celebração e comunhão com os meus e de registro de um novo capítulo na história da Academia, marcado pela potência, pela representatividade e por uma literatura pungente e plural. Peço aos ancestrais que possam me conduzir nessa jornada, que é de uma poética viva, mas também de muita responsabilidade com o espaço que agora ocupo e com a literatura do nosso território, que passa a ser demarcada também pela pertença, pela presença e pelas vozes da literatura indígena brasileira contemporânea.”
Nos atos formais da posse, o Termo de Posse foi lido pelo acadêmico Gilvan Florêncio. Já o Diploma Acadêmico teve sua leitura realizada pela acadêmica e professora Verônica Flôr, sendo posteriormente entregue a Adriana pelas acadêmicas e professoras Dilza Reis e Verônica Flôr.
Outro momento de forte simbolismo aconteceu durante o Discurso Oficial de Recepção. Escolhido pela própria Adriana para recebê-la em nome da instituição, o presidente da Academia de Letras de Porto Seguro, acadêmico Rod Pereira, iniciou suas palavras em Patxohã, língua do povo Pataxó, antes de prosseguir o pronunciamento em português.

Para Rod Pereira, a chegada de Adriana representa um marco para a instituição e para a presença das vozes indígenas nos espaços literários.
“Receber Adriana Pesca Pataxó nesta Casa significa reconhecer que a literatura brasileira precisa ouvir cada vez mais as vozes que nasceram antes mesmo da própria ideia de Brasil. Quando uma escritora indígena ocupa uma cadeira em uma Academia de Letras, não chega sozinha. Com ela chegam sua ancestralidade, seu povo, suas histórias e uma maneira própria de compreender e narrar o mundo. E esperamos que esta posse também possa servir de inspiração para que outros escritores e escritoras dos povos originários ocupem esses e muitos outros espaços.”
Em seu discurso de posse, Adriana também prestou homenagens ao presidente Rod Pereira, ao professor e acadêmico Éder Rodrigues, à sua mãe, representando a ancestralidade e a continuidade entre gerações, e ao próprio povo Pataxó, reafirmando o caráter coletivo daquele momento.
A solenidade contou ainda com pronunciamento do Superintendente de Cultura de Porto Seguro, Herculano Assis.
A posse de Adriana Pesca Pataxó inaugura um novo capítulo na trajetória da Academia de Letras de Porto Seguro e estabelece um encontro simbólico entre os tradicionais ritos acadêmicos e a língua, a espiritualidade, os saberes e a ancestralidade dos povos originários.
Ao ocupar a Cadeira nº 30, Adriana leva para dentro da Academia não apenas sua trajetória e sua produção intelectual, mas também a presença da literatura indígena brasileira contemporânea e a voz de um povo que faz parte da própria identidade histórica e cultural do território de Porto Seguro.








