POR ROD PEREIRA
“Para tirar meu Brasil dessa baderna
Só quando o morcego doar sangue
E o saci cruzar as pernas.”
A frase de Bezerra da Silva não é exagero. É o retrato de um país que já desistiu de se surpreender. Não porque lhe falte esperança em teoria, mas porque a prática repetida tratou de desgastá-la até que ela deixasse de ser expectativa e passasse a ser apenas retórica.
O país não carece de análise política. Carece de vergonha histórica.
Porque tudo o que hoje se apresenta como escândalo já foi denunciado antes com mais lucidez, menos protocolo e nenhuma preocupação em parecer equilibrado. A música brasileira fez o que a política raramente consegue: disse a verdade sem pedir licença.
Quando Noel Rosa pergunta “onde está a honestidade?”, não inaugura uma dúvida. Expõe uma ausência que, àquela altura, já era antiga. O Brasil nunca perdeu a honestidade. Ele apenas nunca a institucionalizou.
Décadas depois, o país resolve sofisticar a própria contradição. Ultraje a Rigor crava que “a gente não sabemos escolher presidente”. E talvez esse seja um dos raros momentos em que o erro gramatical revela uma verdade absoluta. O Brasil não apenas escolhe mal ele insiste em escolher mal com uma confiança quase admirável.
A indignação cresce, mas curiosamente não produz ruptura. Legião Urbana pergunta “que país é esse?” enquanto descreve um cenário onde “sujeira pra todo lado” deixou de ser denúncia para se tornar paisagem. No Brasil, o absurdo não escandaliza. Ele se adapta.
E então surge a camada mais incômoda de todas. Chico Buarque não grita — ele revela:
“Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.”
O problema nunca foi apenas quem rouba.
Foi quem permite.
O Brasil desenvolveu uma habilidade rara: conviver com o desvio sem interromper a rotina. A corrupção, aqui, não precisa se esconder. Basta esperar. Em algum momento, ela deixa de ser notícia e passa a ser hábito.
Quando Cazuza exige que o Brasil “mostre a sua cara”, já não há ingenuidade. Há exaustão. Porque o país não esconde o que é. Ele apenas alterna narrativas para continuar sendo o mesmo.
A partir daí, a crítica perde a sutileza e ganha nome. Herbert Vianna ecoa a ideia dos “300 picaretas com anel de doutor” e elimina qualquer dúvida: o problema não está nos desvios está na estrutura que os normaliza.
É nesse ponto que a política brasileira revela seu talento mais perverso: transformar crítica em plataforma eleitoral.
Luís Inácio constrói sua trajetória denunciando esse sistema. Sua força nasce da promessa de ruptura, da crítica aos vícios do poder, da ideia de enfrentamento. Durante muito tempo, representou a possibilidade concreta de mudança.
O que se observa hoje, no entanto, é menos ruptura e mais assimilação. Inserido na estrutura que antes criticava, seu governo passa a operar dentro das mesmas engrenagens que sustentam o sistema. A crítica não desaparece ela perde intensidade. E o que se revela não é uma falha individual, mas a força de um modelo que não apenas resiste à mudança, mas absorve quem tenta promovê-la.
Enquanto isso, o cidadão amadurece, mas não o suficiente para mudar o jogo.
Biquini Cavadão apresentou o “Zé Ninguém” como alguém sem voz. Isso já não é totalmente verdade. O brasileiro fala, opina, reage. O problema é outro: não sustenta a própria indignação por tempo suficiente para transformá-la em ruptura.
O Brasil entende exatamente o que está errado. Só não faz o suficiente para mudar. E talvez essa seja a sua maior contradição: um país lúcido demais para se enganar, mas confortável demais para se transformar.
No fim, resta o que sempre restou.
A constatação, dita de forma mais honesta do que qualquer discurso oficial por Bezerra da Silva:
Para tirar o Brasil dessa baderna
Só quando o morcego doar sangue
E o saci cruzar as pernas.


