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COLUNAS POLÍTICA

Brasil: proibido misturar

O curioso caso do país onde ser pardo virou um problema
12 de setembro de 2026
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POR ROD PEREIRA

O Brasil conseguiu uma façanha antropológica extraordinária: transformou a mestiçagem em assunto perigoso. Nós, que passamos cinco séculos nos misturando com uma competência quase industrial, agora começamos a desconfiar da mistura. Num país feito de encontros, conflitos, estupros, casamentos, migrações, escravidão, indígenas, africanos, europeus e de tudo aquilo que aconteceu quando ninguém estava preenchendo formulário racial, dizer que somos resultado desse caldo histórico passou a exigir uma espécie de licença ideológica. O Brasil sempre foi mestiço, mas parece que a palavra ficou inconveniente. Não basta mais estudar o passado. É prudente verificar antes se o passado está de acordo com o presente. A História, ao que parece, ganhou um novo método científico: primeiro escolhemos a conclusão moralmente aceitável, depois selecionamos as perguntas que não ofereçam risco de atrapalhá-la. É extraordinário. Conseguimos finalmente aperfeiçoar a pesquisa: eliminamos a desagradável possibilidade de descobrir alguma coisa.

Mary Del Priore cometeu a imprudência de escrever um livro. Pior: um livro de História. Pior ainda: resolveu pesquisar o Brasil. E não satisfeita em mexer nesse armário onde guardamos escravidão, violência, sexo, fé, preconceito, desejo, poder e umas tantas certidões de nascimento capazes de arruinar qualquer teoria racial muito organizada, resolveu falar de mestiçagem. Aí abusou. História tudo bem, desde que o passado tenha bons modos. Pesquisa também, desde que descubra aquilo que já decidimos saber. Mas mestiçagem? Em pleno século XXI? É quase entrar numa reunião de identidades carregando uma árvore genealógica.

O livro se chama História das Mestiçagens no Brasil, organizado por Mary Del Priore e Gian Melo e publicado pela Editora Unesp. São centenas de páginas reunindo pesquisadores para estudar como mestiçagens biológicas e culturais participaram da formação brasileira, não como uma linda confraternização entre povos, mas atravessadas por conflitos, resistências, hierarquias, negociações e violência. Em outras palavras, exatamente aquilo que historiadores deveriam fazer: pegar uma realidade complicada e torná-la ainda mais complicada, porque quase sempre é assim que a realidade funciona.

Mas alguma coisa deu errado. Não na pesquisa. Na recepção. Segundo a própria Fundação Editora Unesp, Mary recebeu mensagens insultuosas e ameaças pelas redes sociais. A situação levou a editora a providenciar segurança extra para a sessão de autógrafos na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada em 5 de setembro. Felizmente, o evento ocorreu sem incidentes. Portanto chegamos oficialmente a um estágio fascinante do debate intelectual brasileiro: uma historiadora precisou de segurança para autografar um livro de História. Não era um lançamento de armas. Não era encontro de torcidas organizadas. Era livro. Com páginas. Bibliografia. Notas de rodapé. O perigo agora vem encadernado.

Antigamente, quando alguém discordava de um historiador, havia um procedimento antiquado chamado “debate”. Você procurava documentos, escrevia outro artigo, encontrava erros metodológicos, contestava interpretações. Era trabalhoso. Às vezes era necessário ler o livro inteiro, um hábito extremamente desgastante. Evoluímos. Hoje podemos discordar da capa, do título e, em casos de grande dedicação intelectual, da sinopse. A ameaça resolveu um antigo problema da academia: a necessidade de argumentar.

O Brasil sempre foi mestiço, mas parece que a palavra ficou inconveniente. Não basta mais estudar o passado.

Só que a mestiçagem possui um defeito enorme: Ela aconteceu.

E pior: deixou descendentes.

Muitos. Inúmeros. Milhares

O Censo de 2022 encontrou 92.083.286 brasileiros que se declararam pardos. São 45,3% da população. Pela primeira vez desde 1991, quando começou a atual série comparável, os pardos passaram a ser o maior grupo de cor ou raça do país. Ou seja, não estamos tratando de uma tribo antropológica perdida no interior da Amazônia. Estamos falando de quase metade do Brasil. Você provavelmente conhece um pardo. Talvez tenha almoçado com ele hoje. Talvez seja seu irmão. Seu pai. Sua mãe. Talvez seja você e ainda não tenha recebido o memorando explicando exatamente o que fazer com isso.

É nesse ponto que aparece Beatriz Bueno e comete outra imprudência.

Resolve perguntar.

Beatriz pesquisava no mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense aquilo que denomina “parditude”, buscando reconhecer especificidades da experiência das pessoas pardas. A pergunta, reduzida à sua essência, é desconcertantemente simples: será que uma pessoa parda vive exatamente a mesma experiência racial de uma pessoa preta no Brasil? Pode ser que sim em determinados aspectos. Pode ser que não em outros. Pode ser que a própria pergunta esteja formulada de maneira errada. Descobrir isso, em tempos menos emocionados, era justamente para que servia uma pesquisa.

Beatriz afirma ter sofrido assédio, perseguição e ameaças, inclusive de morte e espancamento, no contexto das controvérsias envolvendo suas ideias. Em dezembro de 2025, foi desligada do programa. Ela relaciona o processo de hostilidade às posições e à pesquisa que desenvolvia. A UFF apresenta outra versão e afirma que o desligamento não teve relação com o tema estudado, mas com questões disciplinares, de participação e de cumprimento das atividades acadêmicas. As duas versões precisam estar aqui porque seria uma ironia monumental escrever um artigo defendendo liberdade intelectual e esconder a versão que atrapalha nosso argumento.

Mas o caso administrativo de Beatriz é apenas uma parte da questão. O que me interessa é outra coisa: por que a própria ideia de estudar a experiência específica do pardo consegue causar tanto incômodo?

É curioso. Passamos anos ouvindo que devemos ouvir as pessoas, compreender suas vivências, respeitar identidades, abandonar definições impostas de cima para baixo e reconhecer experiências históricas particulares. Até aí, perfeito. É uma evolução civilizatória. O problema começa quando um pardo levanta a mão e diz: “Eu gostaria de falar da minha experiência como pardo”.

Aí não.

Não vamos exagerar na diversidade.

Descobrimos uma modalidade fascinante: a diversidade com manual de instruções. Você pode ser diferente, evidentemente, desde que escolha uma diferença disponível no catálogo. É quase um plano de telefonia racial. Temos algumas opções, benefícios específicos e determinadas combinações não estão disponíveis na sua região. Para maiores informações, consulte o regulamento. O sujeito olha para a própria pele, para os pais, para os avós, para a história familiar e descobre que talvez precise também olhar para os termos de uso.

A questão não é negar o racismo brasileiro. Seria uma estupidez histórica. A mestiçagem brasileira não aconteceu numa festa multicultural patrocinada pelo Ministério do Turismo. Houve escravidão, estupros, exploração, extermínio indígena, desigualdades e hierarquias raciais que atravessaram séculos. O fato de brasileiros terem se misturado nunca significou que passaram a se tratar como iguais. Somos perfeitamente capazes de misturar sangue e preservar preconceitos. Aliás, talvez esta seja outra especialidade nacional: fazemos contradições funcionarem juntas há quinhentos anos.

Mas reconhecer tudo isso não obriga ninguém a fingir que a mestiçagem deixou de existir.

Muito menos proibir que ela seja estudada.

Existe uma diferença enorme entre dizer “a mestiçagem não eliminou o racismo” e dizer “falar de mestiçagem enfraquece determinada interpretação do racismo, portanto é melhor não falar”. A primeira frase é uma hipótese histórica discutível e investigável. A segunda é catecismo. E ciência com catecismo costuma acabar mal. Quando a conclusão precisa ser protegida das perguntas, talvez já não estejamos protegendo conhecimento. Estamos protegendo crença.

É aqui que Mary Del Priore encontra Beatriz Bueno.

Não porque os casos sejam idênticos. Não são. Uma é uma historiadora consagrada lançando uma coletânea acadêmica. A outra protagonizou uma disputa dentro de um programa universitário, com versões conflitantes sobre seu desligamento. Mas existe uma pergunta atravessando os dois episódios: o que acontece quando determinado objeto de pesquisa ameaça uma narrativa já socialmente confortável?

Talvez seja este o problema do pardo.

O pardo bagunça.

Ele não respeita a planta baixa.

Num debate que às vezes prefere fronteiras muito bem desenhadas, aparece alguém carregando no rosto, no cabelo, na pele, na família e na ancestralidade a inconveniência histórica de fronteiras que nunca foram tão perfeitas assim. O pardo entra na teoria como aquele convidado que chega à festa e percebe que esqueceram de colocar seu nome na mesa. E quando pergunta onde deve sentar, alguém responde que a pergunta em si já é problemática.

O Brasil adora fazer isso. Quando a realidade fica complicada demais, nós mudamos o vocabulário e esperamos que ela se comporte. Problema vira desafio. Favela vira comunidade. Demissão vira reestruturação. Aumento vira recomposição. E, se a identidade de 92 milhões de pessoas der trabalho demais para explicar, talvez possamos simplesmente encaixá-las numa definição maior e considerar o assunto encerrado. Administrativamente é maravilhoso. Antropologicamente talvez haja alguns detalhes.

Detalhes como pessoas.

O pardo entra na teoria como aquele convidado que chega à festa e percebe que esqueceram de colocar seu nome na mesa.

História é uma ciência particularmente inconveniente porque os mortos não acompanham nossas atualizações conceituais. Um português do século XVIII não sabia quais palavras seriam permitidas em 2026. Uma indígena não pediu parecer para amar, casar ou ser violentada. Um africano escravizado não consultou nosso vocabulário contemporâneo antes de ter filhos. A História aconteceu sem departamento de comunicação. Que deselegância.

Talvez por isso ela incomode tanto.

Ela insiste em lembrar que o passado não foi escrito para confirmar o presente.

Universidades deveriam ser justamente o lugar onde Mary Del Priore pudesse escrever sobre mestiçagem, Beatriz Bueno pudesse pesquisar parditude e outros pesquisadores pudessem publicar quinhentas páginas demonstrando que as duas estão erradas. Isso seria extraordinário. Mary responderia. Beatriz responderia. Outros entrariam na discussão. Surgiriam novos documentos, novas interpretações, novas perguntas. Haveria congressos, artigos, livros e aquela coisa antiga, hoje um tanto exótica, chamada pensamento.

A alternativa é mais econômica.

Primeiro estabelecemos quais conclusões são aceitáveis. Depois autorizamos apenas as pesquisas que possam chegar até elas. Nesse caso, podemos reduzir bastante o orçamento das universidades. Não precisaremos mais de departamentos de História, Sociologia ou Antropologia.

Basta abrir um cartório.

O Cartório Nacional das Identidades.

Você entra, pega a senha e espera.

“Próximo!”

“Como o senhor se declara?”

“Pardo.”

Silêncio.

A atendente levanta os olhos lentamente.

“Pardo?”

“Sim.”

“Tem certeza?”

O sujeito olha para o braço. Lembra da mãe. Do pai. Dos avós. Pensa um pouco.

“Bom… até entrar aqui eu tinha.”

É quase engraçado.

Quase.

Porque uma sociedade começa a ter problemas sérios quando deixa de perguntar se uma ideia é verdadeira ou falsa e passa a perguntar primeiro se ela é permitida ou proibida.

O Brasil continua mestiço.

Apenas nossa discussão sobre o Brasil está ficando assustadoramente preto no branco.

Politica Rod Pereira
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