Se você passou o último ano aguardando ansiosamente para voltar a Pandora, tenho duas
notícias: a primeira é que seus olhos vão agradecer. A segunda é que seu cérebro talvez
peça um descanso.
Assisti ao recém-lançado “Avatar: Fogo e Cinzas” (ou, como carinhosamente apelidei,
Avatar 2.5 Pro Max) e a experiência é exatamente aquela montanha-russa que a gente já
conhece: um visual de cair o queixo misturado com um roteiro que parece ter sido escrito
num guardanapo de bar.
Uma “Tech Demo” de Luxo
Vamos tirar o elefante (ou a baleia espacial) da sala: visualmente, o filme é impecável. É,
sem exagero, a coisa mais linda já feita na história do cinema.
A direção de arte e os efeitos visuais atingiram um nível onde você não vê mais “bonecos
3D”; você vê pessoas. É assustador. James Cameron transformou o filme em uma
gigantesca demonstração de hardware. Sabe aqueles vídeos de teste de placa de vídeo
que mostram partículas voando e água hiper-realista? É isso. Só que com 3 horas de
duração. Vale o ingresso só para ver até onde a tecnologia chegou.
A Síndrome do “Mais do Mesmo”
Se o visual é Nota 10, a história é aquele aluno que copia o trabalho do colega e só muda a
fonte. A sensação é de estarmos vendo uma repetição do filme anterior.
Temos voos em criaturas? Temos.
Temos baleias (de novo)? Sim, muitas baleias.
Temos o Coronel Quaritch perseguindo o Jake Sully? Com certeza.
A trama parece um upgrade incremental, tipo trocar de iPhone: muda uma câmera, aumenta
a bateria, mas no fundo é o mesmo aparelho. As motivações se repetem, as perseguições
se repetem e a sensação de déjà vu é constante.
O Povo das Cinzas e “A Varanga”
A grande novidade prometida era o tal “Povo das Cinzas”, a tribo do fogo. E aqui entra a
nova vilã, Varang (interpretada por Oona Chaplin), que rouba a cena. Ela é intensa, cética
(uma “anti-fé” que não liga para Eywa) e traz uma energia caótica maravilhosa.
Basicamente, ela alterna entre filosofar e parecer que está… digamos, muito excitada com a
destruição. É uma personagem que dá um tempero novo, mesmo quando o roteiro não
ajuda.
Personagens: O Bom, o Mau e o “Menino Macaco”
O filme tenta desenvolver os arcos, mas tropeça nas próprias pernas azuis:
Kiri e o Segredo Revelado: Passamos filmes inteiros esperando o “grande poder” da Kiri. A
revelação? Ela invoca um exército de lulas assassinas (que parecem uma praga de
gafanhotos do mar). É visualmente insano? É. Faz sentido? Nem tanto.
Quaritch (O Vilão Imortal): Ele continua sendo o clone do vilão anterior. O filme ensaia uma
redenção, mostra ele hesitando, salvando o filho… mas no fim, ele continua sendo o
malvadão que foge para garantir a sequência.
Spider (O Menino Macaco): Ah, o Spider… Se existe um prêmio para “personagem que
facilita o roteiro”, é dele. Ele escapa de bases de segurança máxima entrando em dutos de
ar (sério, em 2026?) e tem as frases de efeito mais constrangedoras da saga. A última fala
dele no filme é um “Oh, shit” que faria Shakespeare chorar no banho.
Veredito: Desligue o Cérebro e Abra os Olhos
“Avatar: Fogo e Cinzas” é um filme para ser sentido, não pensado. Se você tentar encontrar
lógica na estratégia militar ou profundidade nos diálogos, vai sair frustrado.
Mas, se você aceitar que está ali para ver um espetáculo visual, um show de luzes e cores
que custou o PIB de um pequeno país, a diversão é garantida. É brega? Muito. É repetitivo?
Demais. Mas James Cameron sabe, como ninguém, enfeitar um roteiro fraco com imagens
que vão ficar na sua cabeça por semanas.
Nota: 5 baldes de pipoca (pelo visual) e 2 lulas assassinas (pelo roteiro).

Lucas Campos é Coordenador de programação da TV Porto, produtor, diretor de programas, Comentarista e Colunista do Universo de Cinema, Televisão, Música, Cultura Pop, Geek e Esportes.

