A Velhinha de Taubaté, única brasileira que ainda acreditava nos políticos, apareceu na porta do céu com sua bolsa cheia de recortes de jornal. “Vim conferir se essa história é verdadeira. Morreu mesmo o Verissimo? Porque se for fake news, vou mandar carta para o editor.”
O Analista de Bagé ajeitou os óculos, cruzou as pernas e decretou: “É verdade, tchê. Mas não te preocupa, aqui também tem divã. Só que, em vez de Freud, o santo da vez é São Genaro. E o tratamento inclui chimarrão eterno.”
Ed Mort, o detetive mais atrapalhado da literatura brasileira, deu uma tragada no cigarro e murmurou: “Não consegui desvendar minha própria vida, mas o Verissimo desvendou a alma do Brasil com uma máquina de escrever. E fez isso com mais ironia do que eu jamais consegui juntar em meus relatórios.”
No fundo da sala celestial, um coro de personagens secundários: jogadores de futebol, cronistas de botequim, velhos amigos de Copacabana e até a Velhinha de Taubaté versão adolescente aplaudia. Era a plateia que Verissimo sempre teve: o povo comum, capaz de se enxergar nas pequenas ironias do cotidiano.
Porque foi isso que ele fez durante décadas: ensinou que o humor não é inimigo da inteligência, mas seu aliado. Que rir da própria tragédia nacional talvez seja a mais brasileira das terapias. Que a literatura não precisa de frases empoladas, basta um olhar afiado, um ouvido atento e a coragem de dizer a verdade como quem conta uma piada.

Luis Fernando Verissimo foi cronista, romancista, cartunista, músico, tradutor e, acima de tudo, observador. Escreveu sobre política como quem comenta futebol e sobre futebol como quem escreve poesia. Em mais de 80 livros publicados, espalhou humor e crítica social sem perder a ternura, conquistando gerações de leitores que descobriram nele um amigo invisível de mesa de bar.
A última mesa, agora, é no céu. E ali, entre goles de café, rodadas de chimarrão e risadas que não cabem no silêncio, seus personagens se levantam para saudar o homem que os criou.
“Verissimo não morreu” – cochichou a Velhinha de Taubaté, desconfiada “ele só virou crônica de página inteira, sem prazo de entrega.”
E, do outro lado, ouviu-se uma gargalhada larga, dessas que só os bons cronistas conseguem provocar.
- Rod Pereira
Dramaturgo, estrategista de marketing, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, cronista e provocador de ideias. “Meu texto é farpa e abraço, caos e poesia.Sempre com uma boa dose de ironia e humanidade”.



1 comentário
Grande texto, muito bom!
Salve, Veríssimo!