Ao sair da sala de cinema, fui questionado por amigos sobre minhas impressões de “O Agente Secreto” (2025). Naquele momento, só consegui responder: sentimentos conflitantes.
Conflitantes porque é um filme que te desarma justamente quando parece estar no auge. Você é pego de surpresa no instante em que mais se envolve com a trama. Quando acredita que entendeu o caminho que ela vai seguir, algo muda, e tudo se quebra.
Minutos depois, ainda em frente ao cinema, chegamos a um consenso: se houvesse uma palavra para definir o que havíamos acabado de assistir, seria esquecimento.
O esquecimento é o que permeia e dita o ritmo de toda a história, do protagonista aos seus objetivos, passando pelo próprio contexto histórico em que tudo se insere. (Falarei mais sobre isso adiante.)
Antes de seguir para a sinopse, vale um adendo: não vá ao cinema esperando ver um “agente secreto” no sentido tradicional. Embora o personagem de Wagner Moura de fato precise agir nas sombras, o que o filme nos apresenta é alguém comum. Ou melhor, alguém tentando ser comum em tempos infelizmente incomuns.

Sinopse
Em 1977, Marcelo, um professor universitário, retorna a Recife, sua cidade natal. Seu objetivo é se reaproximar do filho, que vive com os sogros, e deixar para trás seu misterioso passado em São Paulo.
Ao chegar em plena época de Carnaval, Marcelo se hospeda em um local que abriga outros “refugiados” de diferentes histórias e origens, e para reforçar seu disfarce, passa a trabalhar no Instituto de Identificação da polícia, onde também pretende encontrar um documento de sua mãe, já falecida. No entanto, sua tentativa de recomeço é interrompida quando descobre estar sendo perseguido por assassinos de aluguel, enviados por um antigo desafeto dos tempos paulistanos.

Considerações
O Agente Secreto usa como pano de fundo o Brasil da ditadura militar para construir uma narrativa que raramente menciona o regime diretamente, mas que está permanentemente imersa em seu contexto. O diretor Kleber Mendonça Filho não faz discursos ostensivos sobre a repressão: ele fotografa o entorno, os olhares, os documentos sumidos. Neste sentido, o filme trabalha o conceito de memória e de esquecimento como base da sua tensão dramática. Isso fica evidente quando o protagonista passa boa parte do filme tentando encontrar um único registro sobre sua mãe falecida, um documento que simboliza justamente aquilo que foi apagado pela história. Essa busca pessoal reverbera quando pensamos no âmbito coletivo: o Brasil que se esquece de si mesmo e que mantém feridas sem cicatrizar.
A ambientação de Recife nos anos 70 é outro pilar do filme. A cidade não aparece como mero cenário de passagem: ela se impõe como personagem viva, seja no carnaval, nas manchetes, no cinema e nas ruas quase sempre movimentadas. Todo esse movimento é essencial para criar uma atmosfera de expectativa e inquietação. Nessa ambientação, qualquer cena de aparente calmaria carrega tensão. Mesmo os momentos mais “tranquilos” parecem prelúdio de algo que vai se romper. Um exemplo disso é em um momento em que os refugiados, reunidos para uma confraternização, dão risada e leem notícias do jornal da cidade. Um momento de claro respiro frente à toda a atmosfera do longa, mas que sempre deixa um ar de inquietude em quem está assistindo, mesmo que nada de fato aconteça.
Wagner Moura entrega uma atuação contida e sutil, mas com tanta carga que o espectador se pergunta por que alguém tão sereno está sendo caçado. Ele usa o olhar mais do que o discurso, e essa economia nos gestos dialoga com a perseguição silenciosa que o personagem atravessa. Definitivamente todo esse clamor em volta de sua indicação premiações como o Oscar é justificável. Ao seu lado, Tânia Maria, no papel de Dona Sebastiana, rouba absolutamente todas as cenas com uma naturalidade que mistura doçura e bom humor, mesmo nas falas mais afiadas. Um show à parte.
Ainda assim, o filme está longe de ser perfeito. As passagens ambientadas no “presente”, que dialogam com o passado de 1977, às vezes soam expositivas demais. Há diálogos que explicam o que já se mostra visualmente e quebram o tom mais indireto e sugestivo do restante do longa. A duração (2h40) e o ritmo deliberado também são pontos que podem dividir o público: a impressão que fica é de um tempo que se estende como a memória que não quer se completar, e isso se intensifica a partir do que vemos no final da história.
No fim das contas, O Agente Secreto é um filme que deixa “sentimentos conflitantes”, como disse lá no início. Ele é envolvente, com uma ambientação memorável e atuações de destaque; mas também exige paciência e tolerância ao que não será resolvido/respondido.
De novo, é uma obra que aborda como o esquecimento molda indivíduos, e demonstra que mesmo atos aparentemente micro (achar um documento, voltar à cidade natal, querer ser “normal”) são atravessados por forças históricas maiores. Talvez o final não dê todas as respostas que desejamos, mas isso é parte do que o torna tão relevante e condizente com a época que quer retratar.
Nota: 8/10

Pedro Fernandes é estudante de Jornalismo, repórter da TV Porto, produtor audiovisual pela Redemoinho e apaixonado por cinema. Escreve sobre filmes e séries, analisando histórias, personagens e o impacto dessas produções no público.


