Uma passagem do livro “O menino marrom”, de Ziraldo, em que os dois protagonistas têm a ideia de fazer um pacto de sangue, fez com que a Secretaria de Educação de Conselheiro Lafaiete, na mesma Minas Gerais onde nasceu o ilustrador e autor infantil morto este ano, retirasse o livro das escolas da rede municipal. A decisão foi tomada após a reclamação de um grupo de pais.
O livro, um dos mais importantes da carreira de Ziraldo, é de 1986, e mostra a amizade de duas crianças, uma branca e outra preta. No trecho da história que incomodou os pais, os dois decidem fazer um pacto de sangue para selar a amizade e pegam uma faca. Depois, recuam e buscam um alfinete, para depois decidir usar apenas tinta vermelha, que não acham. Acabam selando a parceria com tinta azul.
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— As crianças conversam entre si, veem coisas na internet e podem ter ideias muito ruins. O livro dá a oportunidade de que isso seja discutido com as crianças, que ela aprenda a avaliar as informações que recebe e aprenda que nem tudo que vê ou ouve deve ser repetido — analisa Érica Araújo Castro, professora que é moradora da cidade e especialista em Educação Básica pela UFMG.
Professores da rede contam que a oposição ao livro começou com um pai que gravou um vídeo reclamando da citada passagem, em conteúdo que rapidamente se espalhou por grupos de trocas de mensagem. A partir disso, um pastor local, filiado ao PL, publicou em suas redes que o livro “não diz nada sobre o racismo, induz as crianças a fazer pacto de sangue cortando o punho”.
Outro ponto que os pais reclamaram foi uma passagem em que o menino deseja que uma velhinha que o trata mal seja atropelada a caminho da missa.
— Acho importante dizer aos pais que seus filhos possuem sentimentos, inclusive ruins. Ciúme, inveja, raiva. A leitura da obra dá a oportunidade de entenderem e discutirem esses sentimentos — explica a professora Érica.
“O menino marrom” foi distribuído para crianças do 3º e 4º ano (com idades entre 8 e 10 anos), antes de ser recolhido pela prefeitura nesta quarta-feira. Em nota, a secretaria afirmou que a obra “é um recurso valioso na educação, pois promove discussões importantes sobre respeito às diferenças e igualdade”, mas, diante das “diversas manifestações e divergência de opiniões”, pediu a suspensão temporária dos trabalhos sobre o livro, para “melhor readequação da abordagem pedagógica, evitando assim interpretações equivocadas”.
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A professora da rede municipal Aline Gama afirma que a secretaria tomou essa decisão para “defender a instituição educacional de toda polarização”:
— Algumas falas do livro não são pertinentes à faixa etária. Ninguém está julgando ou desmerecendo a obra, só sendo prudente para que, ao ler o texto e ver as ilustrações, duas crianças não se sintam estimuladas a fazer o tal pacto, mesmo que o livro mostre muito bem que não se deve fazer — pontua.
Já Érica Castro pondera que “O menino marrom” é um livro apropriado para crianças e tem “vocabulário extenso e enriquecedor, capaz de despertar até a curiosidade pela ciência”.
— “O menino marrom” ainda trata do tema racial de maneira delicada — acrescenta.
Mineiro de Caratinga, Ziraldo morreu em abril, aos 91 anos. Escritor, desenhista, chargista, caricaturista e jornalista, foi um dos fundadores, nos anos 1960, do jornal “O Pasquim”. Em 1980, lançou “O Menino Maluquinho”, um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro voltado para as crianças.
Fonte: O Globo

