Porto Seguro, berço do Brasil, virou também berço da contradição. De manhã, selfie de turista na beira da praia; de noite, sirenes, correria, CPF cancelado. É a cidade do sol e da pólvora, do berço histórico e da cova rasa. O paraíso vendido em panfleto turístico, mas que exala cheiro de sangue atrás dos bastidores.
A polícia se esforça para fazer o seu papel. Entra em bairros, investiga, prende, tenta impor a ordem num terreno minado. No roteiro, são os mocinhos tentando colocar limites onde o caos se instalou. Mas quando a câmera abre, aparece outro protagonista: o traficante de estimação. Ele banca a festa, paga a bebida, o gelo e, em alguns casos, até o Pix do Tigrinho. Compra respeito com pequenos gestos, fideliza com migalhas. Robin Hood versão 9mm. A velha falácia: o Estado não aparece, e o crime veste a fantasia de benfeitor.
Mas nada vem de graça. O dinheiro é sujo, alimentado por drogas, morte e silêncio. Quem dança na festa patrocinada também cava sua própria cova.
Corta a cena. Baile funk da CN. Jovens lotam a rua, som estrondando, foguetes estourando como sinalização de território. É quase uma tomada de Pulp Fiction: corpos vibrando no ritmo do grave, pistolas brilhando como se fossem troféus, gargalhadas histéricas. A juventude celebra sua própria sentença, sem perceber. Jules Winnfield estaria no canto, olhando para a plateia, cuspindo sua frase clássica: “Diga ‘o quê’ de novo, vai… eu te desafio, eu duplo te desafio, filho da p*!”. Aqui, é a lei do crime que fala, desafiando quem ousa atravessar o território.
Enquanto isso, no conforto do gabinete, o governador encena outra comédia barata. Repete que a Bahia é “estado de paz”. Paz? Somos campeões nacionais em homicídios de jovens. Paz de cemitério, talvez. Os números gritam, mas ele tapa os ouvidos. Fingir é mais fácil do que agir, negar é mais conveniente do que admitir o fracasso.
Porto Seguro, que deveria ser vitrine do turismo e da cultura, é hoje palco de um roteiro tarantinesco: um filme de cortes rápidos, diálogos secos e violência explícita. O turista brinda na orla, enquanto a mãe chora no velório. Dois mundos dividindo o mesmo CEP.

E a população já normalizou tudo. Insiste em pedir paz nos grupos de WhatsApp, da mesma maneira que quer saber quem morreu e dá um close na foto do CPF cancelado. A tragédia é real, e não há botão de pausa. O Brasil nasceu aqui. Mas o que cresce hoje é a certeza de que o paraíso virou palco de um roteiro sujo, escrito a balas, encenado por traficantes e negado pelo governo.
- Rod Pereira
Dramaturgo, estrategista de marketing, membro da Academia de Letras de Porto Seguro, Cronista e provocador de ideias. Meu texto é farpa e abraço, caos e poesia.Sempre com uma boa dose de ironia e humanidade.


1 comentário
Triste saber que este cenário de violências invadiu o interior da Bahia. O que fazer, eis a questão.