REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO
Os novos dados consolidados das declarações do Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF), divulgados de forma inédita pela Receita Federal, jogaram luz sobre a profunda desigualdade que molda o topo da pirâmide socioeconômica do país. O levantamento inédito cruzou as informações de patrimônio e renda com recortes de ocupação, gênero e raça dos declarantes, revelando disparidades extremas no topo do funcionalismo público e do setor privado.
Ao todo, o Fisco recebeu 44,3 milhões de declarações em 2026, referentes ao ano-base de 2025. O envio era obrigatório para os cidadãos que receberam rendimentos tributáveis acima de R$ 35.584.
O topo do topo: a elite patrimonial por ocupação
No topo do ranking patrimonial do país, os titulares de cartórios lideram com folga. Essa categoria registra um patrimônio médio declarado de R$ 3,3 milhões. Logo atrás, aparecem os membros do Judiciário (ministros, juízes e desembargadores) e do Ministério Público (promotores e procuradores), ambos acumulando uma média de R$ 2,9 milhões em bens.
A distância dessas funções para carreiras tradicionais da iniciativa privada impressiona. O patrimônio dos donos de cartório é mais do que o dobro do registrado por médicos (R$ 1,4 milhão) e três vezes o montante acumulado por advogados (R$ 1,1 milhão). Entre os dez maiores patrimônios médios por profissão aparecem ainda diplomatas (R$ 2,5 milhões), atletas (R$ 1,7 milhão) e dirigentes de empresas (R$ 1,7 milhão).
Quando analisada a renda média anual, a disparidade se torna ainda mais evidente. Enquanto a média geral dos contribuintes que declararam o IR ficou em R$ 130,5 mil no ano, os titulares de cartório registraram ganhos anuais de R$ 2,8 milhões — o que representa mais de 21 vezes a média nacional. No Judiciário, os rendimentos médios anuais atingiram R$ 1,44 milhão, e no Ministério Público, R$ 1,26 milhão.

Recortes de gênero e raça explicitam distorções
Os números mostram que, mesmo entre as parcelas de maior poder aquisitivo do país, os abismos de gênero e raça continuam nítidos. Na categoria dos atletas profissionais, a diferença patrimonial média chega a 400%: as mulheres declararam R$ 400 em bens, em contraste com os R$ 2 milhões informados pelos homens.
O fator racial expõe outra barreira estrutural na concentração de riqueza. Considerando as dez profissões com maior patrimônio listadas pela Receita Federal, as pessoas brancas acumulam, em média, três vezes o valor declarado por pessoas pretas. Quando a comparação é feita com contribuintes indígenas, a riqueza média dos declarantes brancos chega a ser 5,4 vezes maior.
O novo painel estatístico do órgão federal continuará servindo de base para o acompanhamento do perfil socioeconômico nacional e para o debate sobre políticas públicas e justiça fiscal no Brasil.


