
Antônio José Santana Martins, o Tom Zé, completou 90 anos no último domingo, 11 de outubro. Natural de Irará, na Bahia, o cantautor baiano celebrou a data no palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, e segue trabalhando em um novo álbum de inéditas. A trajetória de Tom Zé como artista reafirma a sua posição como a ovelha desgarrada e o perfil inquieto do movimento tropicalista, mantendo a postura de quem prefere instigar o público a entregar respostas prontas.
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A célebre frase da canção “Tô” (1976), parceria de Tom Zé com Elton Medeiros lançada no álbum Estudando o Samba, resume a atitude criativa que o acompanha ao longo das décadas: “Eu tô te explicando / Pra te confundir / Eu tô te confundindo / Pra te esclarecer”.
A formação do artista reúne influências que vão dos cantadores do sertão baiano às vanguardas eruditas da música contemporânea e à poesia concreta. Desde os anos 1960, na Bahia, Tom Zé esteve no centro dos movimentos culturais ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, com quem participou do espetáculo Nós, por Exemplo (1964).

A celebração de Tom Zé 90 anos marca um momento histórico para a MPB.
Além da atuação no movimento Tropicalista, a trajetória de Tom Zé carrega momentos decisivos na história da música brasileira. Em 1967, foi ele quem apresentou Moraes Moreira ao poeta Luiz Galvão, atuando como o elo inicial para a criação dos Novos Baianos. O artista também firmou parcerias com Os Mutantes, sendo coautor de faixas como “2001” (parceria com Rita Lee) e “Qualquer Bobagem” (com Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias).
Ao contrário de buscas por apelo comercial imediato, o compositor pautou a sua carreira pela pesquisa sonora e pela experimentação estética. Essa postura o levou a períodos de pouca visibilidade nas rádios e no mercado fonográfico nas décadas de 1970 e 1980, momento em que chegou a cogitar o retorno para Irará.
A reviravolta ocorreu no final dos anos 1980, quando o músico britânico David Byrne, ex-líder do Talking Heads, conheceu por acaso o disco Estudando o Samba. Impactado pela originalidade da obra, Byrne lançou a música de Tom Zé no exterior pelo selo Luaka Bop com a coletânea The Best of Tom Zé (1990) e o álbum The Hips of Tradition (1992). O reconhecimento internacional projetou a discografia do baiano para novas gerações e palcos globais.

Nas décadas seguintes, discos como Com Defecto de Fabricación (1998), Jogos de Armar (2000), Estudando o Pagode (2005), Estudando a Bossa (2008) e Tropicália Lixo Lógico (2012) consolidaram um repertório focado na descontrução de ritmos tradicionais, uso de ruídos e arranjos não convencionais.
Aos 90 anos, o mestre baiano permanece em plena atividade criativa, reafirmando que o seu papel na cultura nacional vai além da canção tradicional: trata-se de uma provocação constante sobre a linguagem, o ritmo e a arte brasileira.
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