REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO |
A fachada de “empresa cidadã” que a Neoenergia tenta vender na Bahia, escorada no anúncio recente de R$ 24,7 bilhões em investimentos, está ruindo por dentro. Enquanto o cidadão de Porto Seguro e região sofre com uma rede elétrica obsoleta da década de 1990, os bastidores corporativos da multinacional espanhola viraram caso de polícia e de fiscalização federal. A empresa passou a ser alvo de um contundente pedido de investigação na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados por suspeita de aplicar práticas contratuais predatórias e calotes em prestadores de serviço.
O requerimento parlamentar atende a denúncias graves que apontam um verdadeiro “modus operandi” de estrangulamento financeiro contra as empresas terceirizadas que executam suas obras. De acordo com os relatos encaminhados à Comissão, a holding acumula atrasos crônicos em repasses financeiros, descumprimento deliberado de contratos e readequações de escopo sem qualquer transparência. É o retrato de um monopólio que usa de sua força descomunal para esmagar o empresariado local e as construtoras que colocam a fiação de pé.
Práticas predatórias: O jogo sujo nos contratos bilionários
As informações que baseiam o pedido de investigação revelam o que muitos já suspeitavam: a crise na prestação de serviços da concessionária não é incompetência técnica, é modelo de negócios. Ao impor contratos leoninos e asfixiar financeiramente as executoras — retendo pagamentos legítimos e alterando regras de forma unilateral —, a Neoenergia empurra as subempreiteiras à falência.
O impacto dessa política predatória bate direto na porta do consumidor baiano. Quando uma empresa terceirizada não recebe da Neoenergia, as obras de manutenção param, os salários dos eletricistas atrasam, as frentes de trabalho no Extremo Sul são abandonadas e o serviço, que já é caótico, desaba de vez. É por isso que Porto Seguro continua operando com transformadores e fiação que parecem peças de museu: quem tem competência para trabalhar não aguenta o calote e a falta de transparência da concessionária.
A gravidade do requerimento na Câmara Federal é tanta que prevê a convocação imediata da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), do Ministério de Minas e Energia, da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM) e do próprio CEO da holding, Eduardo Capelastegui Saiz, para prestar esclarecimentos e responder pelas denúncias de abuso econômico.

O silêncio dos cúmplices e o prêmio da concessão
Diante de um cenário tão hostil, onde a empresa é acusada de precarizar os contratos na base e sabotar a própria infraestrutura, torna-se ainda mais vergonhosa a conivência do Governo Federal, que chancelou a renovação antecipada do contrato de concessão da Coelba até 2057. Como um grupo econômico alvo de denúncias de práticas predatórias e responsável por um apagão técnico crônico na Bahia recebe de presente mais 30 anos de monopólio?
A conta não fecha para o trabalhador, para o hoteleiro e para o comerciante de Porto Seguro, que pagam uma das tarifas mais caras do país para financiar um grupo que, segundo as investigações, maltrata quem trabalha e ignora quem consome. Enquanto a diretoria se esquiva dizendo que “não foi formalmente notificada”, os prejuízos na ponta do sistema continuam sangrando a economia do Sul da Bahia.
Fiscalização máxima: Chega de impunidade
O anúncio pomposo de bilhões em investimentos perde toda a credibilidade quando confrontado com a realidade dos fatos. Se a empresa aplica táticas asfixiantes contra seus próprios parceiros comerciais, o que garante que o dinheiro anunciado vai de fato se transformar em melhoria real nas ruas e distritos de Porto Seguro? Ou será apenas mais uma manobra contábil para acalmar os ânimos do mercado financeiro e dos políticos de plantão?
O Mais Bahia seguirá acompanhando o desdobramento dessa investigação em Brasília com lupa e cobrança firme. A Neoenergia precisa entender, de uma vez por todas, que o solo baiano não é terra de ninguém para a execução de monopólios predatórios. Exigimos auditoria rigorosa nesses contratos, o fim do calote nas prestadoras de serviço e, acima de tudo, o respeito que a população de Porto Seguro nunca recebeu. O tempo do descaso protegido por contratos burocráticos acabou.


