REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO |
Um anúncio bilionário com sabor de promessa antiga. No último fim de semana, a Neoenergia Coelba oficializou um plano de investimentos robusto: R$ 24,7 bilhões destinados à Bahia até 2030, com a promessa de gerar até 4 mil empregos e modernizar a infraestrutura elétrica do estado. O anúncio coincide com a troca de comando na concessionária, agora sob a presidência de Fabiana Lopes, e ocorre logo após o Ministério de Minas e Energia garantir a renovação antecipada do contrato da empresa até o longínquo ano de 2057.
No papel e nos discursos oficiais, os números impressionam e são tratados como um marco histórico de desenvolvimento. No entanto, para quem vive, trabalha e tenta produzir na Costa do Descobrimento — especialmente na região de Porto Seguro —, a realidade que sai das tomadas está longe de ser um motivo de comemoração antecipada. O que o governo e a empresa chamam de “novo ciclo de expansão” é recebido pela sociedade civil e pela classe empresarial como uma obrigação há muito negligenciada.
O apagão do desenvolvimento: Redes da década de 90 e o descaso crônico
Enquanto a concessionária celebra a renovação de mais 30 anos de monopólio sobre o fornecimento de energia dos baianos, Porto Seguro e os municípios vizinhos amargam as consequências de décadas de desinvestimento. Uma averiguação técnica e o clamor público na região revelam um cenário alarmante: boa parte da fiação, dos transformadores e da estrutura de distribuição que atende o Extremo Sul da Bahia remonta à década de 1990.
São mais de trinta anos operando com uma espinha dorsal elétrica obsoleta. Nesse meio tempo, a população de Porto Seguro multiplicou, o turismo explodiu, novos empreendimentos surgiram e a demanda energética saltou a patamares tecnológicos que as redes do século passado simplesmente não conseguem suportar.
O resultado desse descompasso é sentido diariamente no bolso do cidadão e do empresário. Quedas constantes de tensão, “piscas” que queimam eletrodomésticos, apagões em períodos de alta temporada e a demora crônica para novas ligações elétricas travaram o potencial de expansão do comércio e da hotelaria locais. Empresários da região foram obrigados a se submeter a um serviço irregular e ineficiente, arcando sozinhos com os prejuízos de equipamentos danificados e diárias canceladas por falta de luz.
A grande contradição: O prêmio da renovação antecipada
O ponto central que exige o questionamento da sociedade e das autoridades públicas é a lógica política por trás da renovação. Como um serviço que acumulou tantas queixas, protestos na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) e multas recordes nos órgãos de defesa do consumidor consegue garantir, de forma antecipada, o direito de controlar a energia do estado por mais três décadas?
A renovação do contrato até 2057, assinada pelo Governo Federal antes mesmo de uma melhora palpável na ponta do sistema, retira do cidadão o poder de barganha e a concorrência. Se o histórico recente foi de abandono, o que garante que os R$ 24,7 bilhões anunciados agora serão distribuídos de forma justa, corrigindo as distorções históricas do Extremo Sul, e não concentrados apenas nos grandes polos industriais ou na região metropolitana?
Olho aberto e cobrança firme
A chegada da nova gestão e o montante anunciado não podem servir de cortina de fumaça para apagar os anos de prejuízos. A população de Porto Seguro e do Sul da Bahia não quer apenas anúncios em coletivas de imprensa; quer ver a substituição imediata dos postes e cabos obsoletos da década de 90, quer o fim das oscilações que destroem o comércio e exige um cronograma claro de onde e quando esses bilhões serão aplicados na nossa região.
O espaço está aberto para que a Neoenergia Coelba demonstre, de forma transparente e com prazos detalhados, o plano de metas específico para Porto Seguro e o Extremo Sul. Até que a energia pare de oscilar e o serviço se mostre digno do valor cobrado nas faturas, o papel do jornalismo e da comunidade será o de fiscalizar, cobrar e não aceitar o descaso como vizinho de parede.


