REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO COM FONTES |
O clima no planeta está dando sinais claros de que não está para brincadeira neste ano de 2026. Organismos oficiais como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) já confirmaram: as condições do fenômeno El Niño já estão presentes no Oceano Pacífico Equatorial e as chances de enfrentarmos um evento de intensidade severa — o temido “Super El Niño” — ultrapassaram os 37% de probabilidade, devendo se estender até o início de 2027.
Para quem vive na Bahia, especialmente na nossa pulsante Costa do Descobrimento, o aviso que vem dos especialistas é um só: é hora de acender o sinal de alerta e se planejar. O fenômeno promete mexer com o bolso, com a terra e com o turismo.
O que este El Niño tem de diferente?
Se você puxar pela memória, vai lembrar que o El Niño de 2023/2024 quebrou recordes de calor, mas as chuvas na Bahia não sumiram por completo porque as águas do Oceano Atlântico também estavam excepcionalmente quentes, equilibrando o jogo.
A diferença crucial em 2026 é o tempo de resposta e o efeito acumulado. Conforme aponta a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os intervalos entre os eventos climáticos extremos estão mais curtos e a duração deles se prolongou. Estamos entrando em um novo ciclo de forte aquecimento sem que a terra e os reservatórios tenham se recuperado totalmente dos estresses anteriores. Cientistas alertam que este ciclo pode figurar entre os mais intensos da história recente em termos de anomalias térmicas globais.

Os impactos na Bahia e na Costa do Descobrimento
O El Niño atua bagunçando a circulação de ventos. No Sul do país, ele despeja tempestades; aqui no Nordeste e na faixa norte de Minas e Bahia, ele bloqueia as frentes frias, resultando em calor extremo e chuvas severamente irregulares e abaixo da média.
Na Costa do Descobrimento — compreendendo municípios polo como Porto Seguro, Eunápolis e Santa Cruz Cabrália —, os efeitos se dividem em três frentes críticas:
Agricultura: O calcanhar de Aquiles do Matopiba e do nosso Extremo Sul Baiano
A agricultura de sequeiro (aquela que depende exclusivamente da água da chuva) é a primeira a sentir o golpe. No oeste baiano (Matopiba- Região formada pelo estado do Tocantins e partes dos estados do Maranhão, Piauí e Bahia, onde ocorreu forte expansão agrícola), o atraso e a irregularidade das chuvas ameaçam o calendário da soja e do milho.
Aqui na nossa região, culturas fortes como o café, o mamão e as pastagens para a pecuária leiteira e de corte vão exigir atenção redobrada. O solo sofrerá com a forte evaporação. A recomendação da assessoria técnica da CNA é clara: o produtor precisa usar sementes mais resistentes ao estresse hídrico, escalonar o plantio e buscar, mais do que nunca, o seguro rural para mitigar as perdas na safra 2026/2027.

Turismo: Sol garantido, mas com desafios estruturais
Para o turismo de praia da Costa do Descobrimento, menos chuva costuma significar praias cheias e dias ensolarados — o cenário perfeito para os turistas de fora. No entanto, o calor extremo acarreta riscos colaterais graves:
- Abastecimento de água: O consumo nas redes hoteleiras e residenciais dispara ao mesmo tempo em que os rios e lençóis freáticos locais baixam.
- Estresse térmico: Altas temperaturas exigem cuidados de saúde com turistas e trabalhadores locais.
- Branqueamento de corais: O aquecimento das águas do mar ameaça diretamente a rica biodiversidade dos recifes de fora em Porto Seguro e arredores, prejudicando os passeios de mergulho ecológico.
Economia e Energia: O risco do bolso pesado
O bolso do cidadão vai sentir o reflexo nas gôndolas dos supermercados. Com a quebra de produção de hortifrútis e grãos, a tendência é que o preço dos alimentos suba na primavera e no verão. Além disso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) monitora o risco de queda na vazão das hidrelétricas do Nordeste, o que pode encarecer a conta de luz devido ao acionamento de usinas térmicas.

Devemos nos preocupar? E como minimizar os efeitos?
O pânico não resolve o problema, o planejamento sim. Não estamos de mãos atadas diante da natureza. Especialistas apontam caminhos práticos para os setores público e privado mitigarem os impactos:
- Gestão hídrica rigorosa: Municípios precisam revisar imediatamente seus planos de contingência de água, combatendo o desperdício em hotéis e residências antes que o período mais crítico se instale no final do inverno.
- Manejo agrícola inteligente: Pequenos e grandes produtores devem investir em técnicas de retenção de umidade no solo, como a cobertura morta (palhada), e otimizar os sistemas de irrigação para evitar perdas por evaporação nas horas mais quentes do dia.
- Prevenção a incêndios: O Ministério do Meio Ambiente já declarou estado de emergência ambiental em áreas de risco para o segundo semestre de 2026. No Extremo Sul da Bahia, áreas de pastagem e remanescentes de Mata Atlântica precisam de vigilância total contra queimadas criminosas ou acidentais causadas pelo mato seco.
O Super El Niño de 2026 é uma realidade batendo à nossa porta. Cabe a nós, baianos, usar a informação e a técnica para transformar o alerta em resiliência.
fontes:
INMET (Instituto Nacional de Meteorologia): Fonte das notas técnicas emitidas em junho de 2026 que confirmam que as condições do El Niño já estão oficialmente presentes e instaladas no Pacífico Equatorial, com previsão de se estenderem até o verão austral de 2026/2027.
CPTEC/INPE (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos): Utilizado para a análise dos modelos climáticos de probabilidade, dinâmicas de acoplamento oceano-atmosfera e o bloqueio de frentes frias no Nordeste.
NOAA (Administração Oceanográfica e Atmosférica Nacional dos EUA): Agência internacional de referência que oficializou o início do ciclo do El Niño atual e emitiu os alertas de alta probabilidade para um evento de forte intensidade (“Super El Niño”).
APAC (Agência Pernambucana de Águas e Clima): Dados específicos da meteorologista Edivânia Santos detalhando a subida recente da probabilidade de um Super El Niño de 25% para 37%, além do comparativo técnico com o comportamento do Oceano Atlântico no ciclo de 2023/2024.
CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil): Declarações e análises técnicas de Danyella Bomfim (assessora técnica da CNA), que fundamentaram o impacto nas safras brasileiras 2026/2027, as perdas potenciais na região do Matopiba (incluindo o oeste e extensão da Bahia), a dinâmica de atraso do plantio da soja e a redução de produtividade de culturas de sequeiro.
ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico): Dados de projeção sobre o impacto da redução de chuvas na vazão das bacias hidrográficas do Nordeste e o consequente monitoramento do risco energético e acionamento de usinas térmicas.
MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima): Portarias e decretos oficiais estabelecendo o estado de emergência ambiental preventiva em regiões de risco no segundo semestre de 2026 para o combate e resposta rápida a incêndios florestais e agrícolas.


