REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO
Hoje, mais um grande nome da música e das artes brasileiras nos deixa: Benito di Paula. A passagem de um artista como ele toca fundo, especialmente naqueles que já passaram dos 18 anos há algum tempo e conviveram com suas canções ecoando na TV da sala de uma casa qualquer, em um bairro qualquer, algumas décadas atrás.
SAIBA MAIS : Pagina Oficial do cantor Benito Di Paula
Essas músicas tocavam nos radinhos de pilha encostados em algum canto de cozinha ou em construções espalhadas por este país. Benito di Paula, pelo menos para mim, é uma dessas marcas indeléveis. Não o conheci pessoalmente, mas ele fez parte da minha infância, da minha adolescência e da minha juventude — parte viva da história da cultura da qual faço parte.
Quem nunca ouviu e cantou junto:
“Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie Brown…”
Como não lembrar de vê-lo ao piano em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha ou o Clube do Bolinha? Aquele artista diferente, ostentando paletós brilhantes, um bigode marcante e cabelos longos. Uma mistura de estilo meio largado e meio chique, incrivelmente cativante, singular e popular. Um verdadeiro artista brasileiro.

Nascido Uday Vellozo em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Benito construiu uma trajetória de mais de cinco décadas. Criador de um estilo único que uniu o piano clássico ao samba-enredo e ao romantismo — o chamado “samba-joia” —, ele conquistou o Brasil e o mundo com clássicos inesquecíveis como Retalhos de Cetim, Violão Não Se Empresta a Ninguém, Se Não For Amor e Vai Ficar na Saudade.
Benito di Paula sempre foi como uma marca registrada. Não me coloco como seu maior fã, mas, na minha trajetória no rádio, o caminho do Benito esteve sempre presente na programação e na memória dos ouvintes. São tantos sucessos que é difícil contabilizar. No entanto, não quero apenas falar de sua despedida, mas aproveitar a ocasião para refletir: o tempo passa, mas o que é bom permanece. E as músicas dele são um selo de identidade na cultura do Brasil, que ele soube ilustrar tão bem.
Benito traduziu as esperanças e as dores do povo brasileiro, tornando-se eterno ao cantar a desilusão amorosa e a poesia do Carnaval em Retalhos de Cetim:
“Ensaiei meu samba o ano inteiro
Comprei surdo e tamborim
Gastei tudo em fantasia
Era só o que eu queria
E ela jurou desfilar pra mim…”
Mas ele também retratou um Brasil belo e inigualável, exaltando esse sentimento em Mulher Brasileira:
“Norte a sul do meu Brasil
Caminha sambando, quem não viu?
Mulher de verdade, sim senhor
Mulher brasileira é feita de amor…”
O artista nos deixou em São Paulo, aos 84 anos, após lutar bravamente contra um câncer. Sua partida deixa um sentimento de distância, mas nunca de esquecimento. Benito di Paula permanece marcante não apenas como homem pública ou criador, mas como o cidadão deste país que samba e chora ao mesmo tempo; esse país que se ilude, acorda e canta com um paletó repleto de lantejoulas reluzentes, fazendo samba no piano e unindo o profano ao sagrado.
São lembranças e cores profundas transmitidas naquela antiga Telefunken em preto e branco, onde eu ouvia um artista cantar o Brasil que amo — aquele mesmo Brasil em que eu sonho, sou verso, sou terra, sou sol e sentimento aberto.

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