POR ROD PEREIRA
Outro dia precisei entrar no Gov.br. Nada extraordinário. Eu só queria acessar um serviço público. Não pretendia consultar segredos de Estado, assumir a Presidência da República ou enriquecer urânio. Queria apenas entrar na minha conta.
Comecei pela senha. Digitei e, aparentemente, estava correta. Mas saber a própria senha hoje é apenas a primeira fase. O sistema exigiu uma segunda confirmação com um código gerado pelo próprio aplicativo Gov.br.
Abri o aplicativo, peguei o código, voltei e digitei.
Não conferiu.
Esperei outro código. Digitei novamente.
Não conferiu.
É uma tecnologia interessante: o aplicativo cria o código, mostra o código e depois desconfia do código que ele mesmo criou. É quase uma discussão de casal.
“Foi você quem me deu isso.”
“Não fui.”
Depois de algumas tentativas, chegamos à solução universal da vida digital: trocar a senha.
E aí começou o reconhecimento facial.
O aplicativo avisou que eu precisava estar em local bem iluminado e, em seguida, veio a ordem: retire os óculos.
Aí complicou.
Eu uso óculos porque, sem eles, não enxergo. Não é um acessório conceitual.
O Governo criou então um paradoxo perfeito: para ler as instruções, eu preciso dos óculos. Para provar que sou eu, preciso tirá-los.
Coloco os óculos: “Aproxime o rosto.”
Aproximo.
Tiro os óculos.
Não vejo mais onde meu rosto deve ficar.
Coloco novamente: “Afaste o rosto.”
Estico o braço, encontro a posição, deixo a mão parada, tiro os óculos e naturalmente alguma coisa sai do lugar.
“Posicione seu rosto corretamente.”
Obrigado. Seria ótimo conseguir enxergar onde.
E ainda não pode tremer. A iluminação precisa estar correta. O rosto deve estar centralizado. Primeiro mais perto, depois mais longe.
Em determinado momento eu estava diante da janela, colocando e tirando os óculos, aproximando o celular, afastando o celular e tentando não mexer a cabeça. Se algum vizinho estivesse olhando, provavelmente imaginaria uma nova modalidade de ioga burocrática.
E tudo isso porque o Governo precisava ter certeza de que eu era eu.
CPF não bastava. Senha não bastava. Código não bastava. E-mail não bastava. Agora era necessário meu rosto.
Passamos décadas reclamando de fila, papel, guichê, carimbo e firma reconhecida. Veio a transformação digital e resolveu tudo.
A fila agora está dentro do celular.
Modernizamos a burocracia. A burocracia apenas modernizou a maneira de nos enlouquecer.
No fim, quando o Gov.br finalmente reconhece você, surge uma alegria absurda.
“Consegui!”
Conseguiu o quê?
Provar que você é você.
E talvez esse seja o maior avanço da burocracia brasileira.
Antes, bastava apresentar um documento.
Agora, além do documento, da senha, do código, do e-mail e do rosto, ainda é preciso convencer o sistema de uma coisa que parecia resolvida desde o nascimento:
que você é você.
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