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COLUNAS POLÍTICA

QUANDO A FICÇÃO PERDE PARA BRASÍLIA

De Frank Underwood a Avilan, a política já inspirou grandes roteiros. O problema é que o Brasil de 2026 resolveu superar todos eles.
19 de setembro de 2026
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POR ROD PEREIRA

Já trabalhei em governo. Já participei de campanhas eleitorais. Já estive em reuniões em que alguém entrou defendendo uma coisa, saiu defendendo exatamente o contrário e, meia hora depois, concedeu entrevista explicando que aquela sempre fora sua posição. Talvez por isso eu tenha aprendido cedo uma verdade fundamental sobre política: a realidade é muito melhor do que a ficção. A ficção, afinal, possui uma limitação terrível. Precisa parecer possível.

Em House of Cards, Frank Underwood é um congressista americano que mente, manipula, chantageia, seduz, conspira e vai eliminando obstáculos enquanto sobe os degraus do poder. De vez em quando, olha diretamente para a câmera e explica ao espectador o que está acontecendo. Hoje percebo como aquilo era reconfortante. No Brasil ninguém explica nada. Você dorme com um ministro investigando um banqueiro e acorda com outro ministro querendo investigar o ministro que investigou o banqueiro. Frank Underwood pediria afastamento por estafa.

Em 1989, Cassiano Gabus Mendes chegou um pouco mais perto e escreveu Que Rei Sou Eu?. Criou Avilan, um reino quebrado, cheio de nobres, conselheiros, privilégios, impostos e autoridades tremendamente preocupadas em preservar o próprio poder. Os conselheiros eram uma sátira nada discreta ao Congresso Nacional. Cassiano foi genial, mas lhe faltou imaginação. Se entregasse hoje o roteiro da República brasileira para uma emissora, ouviria do diretor de teledramaturgia a única recomendação possível: “Cassiano, menos. Ninguém vai acreditar nisso.”

Comecemos pelo Executivo. Milhões de aposentados e pensionistas contestaram descontos associativos que afirmaram não reconhecer em seus benefícios do INSS. Até dezembro de 2025 eram mais de 6,2 milhões de registros desse tipo e mais de R$ 2,8 bilhões em pagamentos de ressarcimento emitidos pelo governo. O aposentado brasileiro alcançou, portanto, uma sofisticação inédita: trabalhou quarenta anos para descobrir que, na velhice, nem precisava mais sair de casa para perder dinheiro. Depois o Estado investiga, bloqueia, devolve, prende alguém e cria uma nova regra explicando que aquilo que aconteceu não poderia ter acontecido.

O Legislativo também resolveu colaborar com a temporada. Em setembro, Polícia Federal e CGU deflagraram a Operação Make Up para investigar supostos desvios de recursos oriundos de emendas parlamentares. Foram 49 mandados de busca e apreensão, com suspeitas envolvendo peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, crimes licitatórios e organização criminosa. Tudo ainda em investigação. O nome da operação é “Make Up”. Maquiagem. Quando até a Polícia Federal começa a escrever metáfora, o cronista corre sério risco de desemprego.

Durante anos ouvimos que as emendas aproximavam o orçamento das necessidades dos municípios. E aproximam mesmo, em inúmeros casos. O problema é quando alguém entende a palavra “aproximar” de forma excessivamente íntima. O dinheiro público sai de Brasília para atender a população e, em determinadas investigações, parece desenvolver um inexplicável desejo de conhecer empresas, intermediários e personagens que não estavam exatamente no roteiro original. É o federalismo brasileiro com milhas aéreas.

Mas então chegamos ao Judiciário. E tudo o que veio antes começa a parecer apenas aquecimento. O caso Banco Master colocou Daniel Vorcaro no centro de investigações sobre supostas fraudes financeiras, e o ex-banqueiro permanece preso enquanto o caso produz ramificações por Brasília. Mensagens, documentos e relações reveladas pelas investigações passaram a produzir referências a integrantes do próprio Supremo em circunstâncias distintas. É importante a ressalva: menção, relacionamento, encontro ou vínculo profissional não significam, por si só, prática de crime.

O problema é que explicar isso já começa a exigir organograma. A crise chegou ao ponto de o próprio plenário do Supremo discutir se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por sua suposta relação com Vorcaro e, simultaneamente, se atos praticados por André Mendonça na condução do caso também deveriam ser analisados. Flávio Dino pediu vista, Fachin pediu que os colegas abandonassem a disputa pessoal e a sessão terminou sem resolver a questão. Pela primeira vez na história da Corte, o plenário discutia a abertura de uma investigação criminal contra um dos próprios ministros.

Moraes classificou o relatório apresentado por Mendonça como ilegal, inconstitucional, mentiroso e baseado, segundo sua defesa, em diálogos que não teriam ocorrido. Mendonça sustentou outro entendimento. Gilmar entrou na discussão, Dino pediu vista, Fachin tentou administrar o plenário, Toffoli e Kassio Nunes Marques se afastaram daquele julgamento por impedimento, e o cidadão comum começou a precisar de um constitucionalista, um psiquiatra e talvez um mapa com setinhas para acompanhar a sessão. Montesquieu imaginou três Poderes independentes e harmônicos. O Brasil manteve “independentes”. “Harmônicos” está aguardando parecer.

E ainda faltava o Madame Satã.

Mensagens obtidas pela Polícia Federal e publicadas pela revista piauí revelaram detalhes de uma festa de Halloween organizada por Vorcaro em 31 de outubro de 2023 no Madame, tradicional casa noturna paulistana historicamente conhecida como Madame Satã. Segundo a reportagem, havia vinte homens e 120 mulheres, e Vorcaro chegou a reclamar que precisava retirar mulheres da lista porque já não cabiam mais. Também houve preocupação com celulares e segurança. São seis mulheres para cada homem. Eu poderia chamar de confraternização empresarial, evento privado ou ação de relacionamento. Com licença do vernáculo, prefiro “rebuceteio”.

Porque chega uma hora em que a língua portuguesa também precisa reagir aos acontecimentos.

O mais extraordinário veio depois. Diante da repercussão, o próprio Madame precisou divulgar uma nota esclarecendo que apenas havia locado o espaço a uma produtora terceirizada, que não mantivera negociação direta com Vorcaro e que lista de convidados, conteúdo e condução do evento eram responsabilidade dos organizadores. Pense na dimensão da proeza. Você consegue realizar um evento tão peculiar que o histórico Madame Satã precisa vir a público dizer, em linguagem institucional: “Calma lá. Também não é assim.”

Quando o inferninho pede preservação reputacional, alguma coisa saiu do controle. É quase como o inferno divulgar nota esclarecendo que não mantém relações institucionais com o demônio, não participou da organização do pecado e apenas alugou o espaço mediante contrato regular. O Brasil talvez seja o único país em que uma casa noturna chamada Madame Satã consegue sair moralmente constrangida de uma história envolvendo banqueiros, políticos e autoridades da República.

E então aparece a outra ponta desta ópera. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, realizou transferências que somaram R$ 40,9 milhões para uma unidade da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte, segundo extratos obtidos pela Folha. A igreja negou irregularidades e apresentou sua versão sobre os recursos. Pronto. Numa ponta da história, Madame Satã. Na outra, Lagoinha. Entre os dois, Banco Master. Nem Deus nem o Diabo pediram para participar desse enredo.

É aí que House of Cards definitivamente perde. Frank Underwood precisava de corredores escuros, encontros secretos e diálogos cuidadosamente escritos. Aqui fazemos crise institucional em sessão transmitida ao vivo. Em Avilan havia nobres, conselheiros e oportunistas tentando controlar o reino. Brasília conseguiu atualizar o formato: temos Executivo explicando, Legislativo sendo investigado, Judiciário investigando o investigado e discutindo quem deve investigar o investigador do investigado.

E todos, absolutamente todos, garantem estar defendendo a democracia. Governo defende a democracia. Oposição defende a democracia. Congresso defende a democracia. Supremo defende a democracia. Ministros começam a defender a democracia uns dos outros. É impressionante a quantidade de gente necessária para salvar uma coisa só. Talvez tenha chegado a hora de consultar a própria democracia. Existe a possibilidade de ela estar querendo uma medida protetiva.

Não significa que a República tenha acabado. Instituições continuam funcionando, investigações acontecem, divergências são públicas, decisões podem ser contestadas e eleições continuam sendo realizadas. O problema não é a existência do conflito. Democracias convivem com conflitos. O problema começa quando cada personagem passa a imaginar que ele próprio é a instituição e que qualquer limite imposto à sua vontade representa automaticamente uma ameaça à República.

Cassiano Gabus Mendes chamou aquele reino de Avilan. Durante anos achei que fosse apenas uma forma elegante de não escrever “Brasil”. Hoje percebo que era outra coisa.

Era excesso de otimismo.

Politica Rod Pereira
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