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NOTÍCIAS

Luena Pataxó: liderança Pataxó é premiada pela FAO

No coração da Costa do Descobrimento, berço histórico do Brasil, a liderança feminina indígena reescreve o destino de comunidades inteiras. O reconhecimento internacional de Luena Pataxó pela FAO coroa um movimento histórico de resistência, sustentabilidade e autonomia econômica liderado por mulheres que transformaram a pesca artesanal e o manejo da terra em ferramentas de preservação da Mata Atlântica e do oceano.
29 de outubro de 2026
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Luena Pataxó, presidente da APIP, em evento internacional representando as mulheres indígenas da Costa do Descobrimento.
Luena Pataxó, presidente da APIP, em evento internacional representando as mulheres indígenas da Costa do Descobrimento.

REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FÁBIO DEL PORTO |

SANTA CRUZ CABRÁLIA — As águas que banham a Terra Indígena de Coroa Vermelha, no extremo sul da Bahia, guardam muito mais do que a subsistência de centenas de famílias. Elas carregam a ancestralidade e a força do povo Pataxó. No centro dessa engrenagem vital está Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida mundialmente como Luena Pataxó.

SAIBA MAIS: Pagina oficial da Luena Pataxó

Pescadora artesanal desde a infância e presidente da Associação de Pescadores Indígenas Pataxó (APIP), Luena gravou seu nome na história global ao ser homenageada em Roma pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Ela foi escolhida como uma das 100 Mulheres Heroínas nos Sistemas Agroalimentares e no Desenvolvimento Rural, um reconhecimento que ecoa a potência das vozes indígenas brasileiras na governança climática e na segurança alimentar.

A voz das marisqueiras e o poder do coletivo

A indicação de Luena à honraria internacional reflete o impacto direto de sua atuação na Costa do Descobrimento. Sob o seu comando, a APIP deixou de ser uma organização local para se transformar no eixo central de uma rede que hoje unifica 13 associações de pescadores em 8 municípios baianos.

O foco central da gestão de Luena tem sido a estruturação da cadeia produtiva da pesca de camarão e o fortalecimento do trabalho das marisqueiras — mulheres que, historicamente, enfrentavam a invisibilidade econômica. Unindo o conhecimento tradicional Pataxó (o respeito aos ciclos das marés, ventos e fases da lua para evitar a sobrepesca) a estratégias modernas de cooperativismo, a liderança conseguiu garantir segurança alimentar, melhoria de renda e condições seguras de trabalho no mar.

“Essa homenagem não é minha, é de todas as mulheres das águas que acordam antes do sol para garantir o alimento e proteger o nosso território”, afirma Luena Pataxó.

A Costa do Descobrimento como epicentro do protagonismo feminino

O reconhecimento global de Luena Pataxó não é um fato isolado, mas o reflexo de um fenômeno que ganha força em todo o Sul da Bahia: o avanço das mulheres indígenas na linha de frente das decisões políticas e ambientais.

Na própria comunidade de Coroa Vermelha, o Projeto Mulheres em Ação — gerido pela Associação de Mulheres Indígenas local — reúne cerca de 150 artesãs da etnia Pataxó. O grupo converteu a bioeconomia em uma poderosa ferramenta de emancipação financeira. Utilizando descartes da própria pesca — como escamas de peixe — além de sementes nativas e fibra de bananeira, elas criam um artesanato de alta valorização cultural, reduzindo o desperdício e gerando autonomia para jovens e lideranças da região.

A poucos quilômetros dali, em direção ao interior e ao litoral de Ilhéus e Olivença, mulheres Tupinambá também assumem papéis centrais de caciquismo e coordenação. Seja nas salas de aula das escolas indígenas, seja no manejo sustentável do cacau sob o sistema cabruca (cultivo integrado à sombra das árvores da Mata Atlântica), as mulheres tornaram-se as guardiãs definitivas da biodiversidade regional.

Pescadora artesanal desde a infância e presidente da Associação de Pescadores Indígenas Pataxó (APIP), Luena gravou seu nome na história global ao ser homenageada em Roma pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O elo entre a ancestralidade e o futuro do planeta

A emergência dessas lideranças no Sul da Bahia redefine o debate sobre sustentabilidade no país. Especialistas apontam que a presença de mulheres indígenas em conselhos, comitês de bacia hidrográfica e grupos de trabalho nacionais — como o Plano Nacional da Pesca Artesanal, do qual Luena participou — traz um olhar focado na preservação de longo prazo.

Enquanto o mundo busca soluções para a crise climática na tecnologia, as lideranças femininas da Costa do Descobrimento provam que as respostas econômicas e ecológicas mais eficientes estão ancoradas no respeito ao território e na partilha comunitária. De Roma à Coroa Vermelha, a mensagem deixada por Luena Pataxó e suas companheiras é nítida: o futuro da terra e do mar passa, obrigatoriamente, pelas mãos das mulheres indígenas.

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