REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FÁBIO DEL PORTO |
SANTA CRUZ CABRÁLIA — As águas que banham a Terra Indígena de Coroa Vermelha, no extremo sul da Bahia, guardam muito mais do que a subsistência de centenas de famílias. Elas carregam a ancestralidade e a força do povo Pataxó. No centro dessa engrenagem vital está Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida mundialmente como Luena Pataxó.
SAIBA MAIS: Pagina oficial da Luena Pataxó
Pescadora artesanal desde a infância e presidente da Associação de Pescadores Indígenas Pataxó (APIP), Luena gravou seu nome na história global ao ser homenageada em Roma pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Ela foi escolhida como uma das 100 Mulheres Heroínas nos Sistemas Agroalimentares e no Desenvolvimento Rural, um reconhecimento que ecoa a potência das vozes indígenas brasileiras na governança climática e na segurança alimentar.
A voz das marisqueiras e o poder do coletivo
A indicação de Luena à honraria internacional reflete o impacto direto de sua atuação na Costa do Descobrimento. Sob o seu comando, a APIP deixou de ser uma organização local para se transformar no eixo central de uma rede que hoje unifica 13 associações de pescadores em 8 municípios baianos.
O foco central da gestão de Luena tem sido a estruturação da cadeia produtiva da pesca de camarão e o fortalecimento do trabalho das marisqueiras — mulheres que, historicamente, enfrentavam a invisibilidade econômica. Unindo o conhecimento tradicional Pataxó (o respeito aos ciclos das marés, ventos e fases da lua para evitar a sobrepesca) a estratégias modernas de cooperativismo, a liderança conseguiu garantir segurança alimentar, melhoria de renda e condições seguras de trabalho no mar.
“Essa homenagem não é minha, é de todas as mulheres das águas que acordam antes do sol para garantir o alimento e proteger o nosso território”, afirma Luena Pataxó.
A Costa do Descobrimento como epicentro do protagonismo feminino
O reconhecimento global de Luena Pataxó não é um fato isolado, mas o reflexo de um fenômeno que ganha força em todo o Sul da Bahia: o avanço das mulheres indígenas na linha de frente das decisões políticas e ambientais.
Na própria comunidade de Coroa Vermelha, o Projeto Mulheres em Ação — gerido pela Associação de Mulheres Indígenas local — reúne cerca de 150 artesãs da etnia Pataxó. O grupo converteu a bioeconomia em uma poderosa ferramenta de emancipação financeira. Utilizando descartes da própria pesca — como escamas de peixe — além de sementes nativas e fibra de bananeira, elas criam um artesanato de alta valorização cultural, reduzindo o desperdício e gerando autonomia para jovens e lideranças da região.
A poucos quilômetros dali, em direção ao interior e ao litoral de Ilhéus e Olivença, mulheres Tupinambá também assumem papéis centrais de caciquismo e coordenação. Seja nas salas de aula das escolas indígenas, seja no manejo sustentável do cacau sob o sistema cabruca (cultivo integrado à sombra das árvores da Mata Atlântica), as mulheres tornaram-se as guardiãs definitivas da biodiversidade regional.

O elo entre a ancestralidade e o futuro do planeta
A emergência dessas lideranças no Sul da Bahia redefine o debate sobre sustentabilidade no país. Especialistas apontam que a presença de mulheres indígenas em conselhos, comitês de bacia hidrográfica e grupos de trabalho nacionais — como o Plano Nacional da Pesca Artesanal, do qual Luena participou — traz um olhar focado na preservação de longo prazo.
Enquanto o mundo busca soluções para a crise climática na tecnologia, as lideranças femininas da Costa do Descobrimento provam que as respostas econômicas e ecológicas mais eficientes estão ancoradas no respeito ao território e na partilha comunitária. De Roma à Coroa Vermelha, a mensagem deixada por Luena Pataxó e suas companheiras é nítida: o futuro da terra e do mar passa, obrigatoriamente, pelas mãos das mulheres indígenas.
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