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Dia do Saci? Entenda o mito e a verdade no folclore brasileiro

Entenda as diferenças entre o Dia das Bruxas e o Dia do Saci. Veja mitos, lendas do folclore e se a cultura brasileira está sendo engolida.
31 de outubro de 2026
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Ilustração do Saci-Pererê
Curupira, lobisomem, Saci-Pererê, todos habitam o campo e são heranças de um Brasil agrário – Foto: ASCOM Prefeitura de Votuporanga/Wikimédia

No dia 31 de outubro, a disputa entre a tradição importada do dia das bruxas e a valorização das raízes nacionais ganha o centro dos debates. Enquanto abóboras iluminadas e fantasiados tomam as ruas e redes sociais, uma figura com uma perna só, gorro vermelho e cachimbo na boca reivindica o seu lugar de direito no imaginário popular. O Dia do Saci surge justamente como um manifesto de resistência cultural no mesmo dia em que o Halloween ou o dia das bruxas mobilizam o mercado ocidental.

SAIBA MAIS:  Saci-Pererê

Mas para compreender a força do nosso imaginário, é preciso separar o joio do trigo: o que é mito, o que é verdade factual e o que a mitologia comparada e o hermetismo nos ensinam sobre as lendas que habitam as matas brasileiras.

O que é mito e o que é verdade no folclore nacional

A palavra “folclore” (do inglês folk-lore, saber do povo) abrange o conjunto de tradições, lendas e costumes transmitidos oralmente. Na prática, confunde-se muito o que são fatos históricos com a construção mitológica.

  • O mito: Entidades como o Curupira, a Caipora e a Iara não são monstros caricatos criados para assustar crianças. Na visão cosmológica dos povos originários, essas figuras funcionam como guardiões arquetípicos da natureza. O Curupira, com seus pés voltados para trás para despistar caçadores, personifica o princípio hermético da correspondência e do equilíbrio: a natureza reagindo contra a ganância e a exploração predatória.
  • A verdade histórica: As lendas brasileiras não nasceram prontas. Elas resultam do encontro de três matrizes: as cosmogonias indígenas, os mitos europeus trazidos pelos colonizadores e o rico acervo místico e espiritual trazido pelos povos escravizados da África.
Cena do filme “O Saci”, de 1950 com direção de Rodolfo Nanni. Baseado no livro “O Saci” (1921), de Monteiro Lobato. Na história. Pedrinho, Narizinho e a boneca de pano Emília moram no Sítio do Picapau Amarelo, junto com sua avó Dona Benta e Tia Nastácia. Pedrinho visita frequentemente o Tio Barnabé para ouvir suas histórias sobre o Saci, um travesso ser de uma perna só que habita a floresta. Um dia, Pedrinho consegue prender o Saci em uma garrafa. No entanto, quando Narizinho é transformada em pedra pela feiticeira Cuca, Pedrinho precisa da ajuda do Saci para quebrar o feitiço.

As principais lendas e suas raízes simbólicas

  1. Curupira: O primeiro mito registrado no Brasil pelos colonizadores, citado pelo padre José de Anchieta em 1560. É a força primordial de proteção florestal.
  2. Iara (Mãe d’Água): Originalmente o mito indígena Ipupiara (o homem da água), a narrativa foi metamorfoseada sob influência europeia, ganhando traços das sereias greco-romanas.
  3. Mula sem Cabeça: Um mito de forte carga moralizante europeia e católica. Do ponto de vista simbólico, a chama que sai do pescoço representa a descontrolada paixão instintiva que consome a razão.
  4. Boitatá: A cobra de fogo que protege os campos contra as queimadas. Um mito puramente tupi-guarani (mboia-tatá), associado ao fenômeno físico do fogo-fátuo e elevado ao status de entidade protetora.

Saci-Pererê: curiosidades e arquétipos

O Saci é o maior símbolo do sincretismo cultural brasileiro. Originalmente uma entidade da mitologia guarani (Jaxy Jaterê), o Saci era representado como um curumim. Com a chegada dos negros escravizados e a influência africana, o mito se transformou: ele perdeu uma perna numa luta de capoeira, ganhou o cachimbo e a carapuça vermelha (originária dos gorros frígios da tradição greco-romana e europeia, associada à liberdade e à magia).

Sob a ótica do hermetismo e da mitologia comparada, o Saci é a síntese exata do arquétipo do Trickster (o trapaceiro sagrado), equivalente a Hermes na Grécia, Loki na mitologia nórdica ou Exu nas matrizes africanas. É a entidade que quebra a rigidez da rotina, que esconde objetos e que habita os redemoinhos de vento — o elemento Ar em constante transformação.

Arte de: Hugo Canuto. – “Pererê” é uma palavra que deriva da palavra tupi “perereg”, significando “aquilo que pula”. É o mesmo radical que vai formar “perereca”. No entanto, como nada no imaginário tem uma origem única, “Pererê” é também onomatopeia do canto de um pássaro. Como a oralidade não tem registro fixo, quem escuta o passarinho cantar transcreve da maneira que entendeu. Por isso, temos outros nomes: Saci-Sererê, Taperê, Taterê, Tererê e assim por diante.

A cultura brasileira está sendo engolida pelo Dia das Bruxas?

A resposta direta e fundamentada é: não, a cultura brasileira não está sendo engolida, mas passa por um processo de aculturação e competição mercadológica.

O dia das bruxas (cujas raízes remetem ao festival celta de Samhain, o ano-novo celta em que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornava mais tênue) chegou ao Brasil empurrado pelo apelo comercial, pelo cinema hollywoodiano e pelas escolas de idiomas. Trata-se de uma celebração adaptada pelo capitalismo de consumo, esteticamente atraente para a infância e juventude modernas.

No entanto, decretar a “morte” do folclore brasileiro em razão da popularidade do dia das bruxas é uma leitura superficial por três motivos centrais:

  1. Diferença de natureza: O Halloween no Brasil opera como uma festa à fantasia e um evento comercial temporário. O folclore brasileiro opera na estrutura profunda da cultura: na medicina popular, nas festas religiosas, no bumba meu boi, no maracatu, na oralidade do interior e na literatura.
  2. Sincretismo e absorção: A cultura brasileira nunca foi estática; sua maior força é justamente a capacidade de deglutir influências externas e reelaborá-las.
  3. Resistência orgânica: A criação de datas comemorativas nativas e a inserção das lendas na literatura e na produção audiovisual contemporânea mostram que a identidade local se reorganiza para proteger suas narrativas.

O Saci e o dia das bruxas não se anulam; pertencem a esferas diferentes. Enquanto a festa importada é um produto de consumo sazonal, o folclore brasileiro é a própria matéria-prima da nossa psique coletiva.

Leia trambém no Mais Bahia:

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