No dia 31 de outubro, a disputa entre a tradição importada do dia das bruxas e a valorização das raízes nacionais ganha o centro dos debates. Enquanto abóboras iluminadas e fantasiados tomam as ruas e redes sociais, uma figura com uma perna só, gorro vermelho e cachimbo na boca reivindica o seu lugar de direito no imaginário popular. O Dia do Saci surge justamente como um manifesto de resistência cultural no mesmo dia em que o Halloween ou o dia das bruxas mobilizam o mercado ocidental.
SAIBA MAIS: Saci-Pererê
Mas para compreender a força do nosso imaginário, é preciso separar o joio do trigo: o que é mito, o que é verdade factual e o que a mitologia comparada e o hermetismo nos ensinam sobre as lendas que habitam as matas brasileiras.
O que é mito e o que é verdade no folclore nacional
A palavra “folclore” (do inglês folk-lore, saber do povo) abrange o conjunto de tradições, lendas e costumes transmitidos oralmente. Na prática, confunde-se muito o que são fatos históricos com a construção mitológica.
- O mito: Entidades como o Curupira, a Caipora e a Iara não são monstros caricatos criados para assustar crianças. Na visão cosmológica dos povos originários, essas figuras funcionam como guardiões arquetípicos da natureza. O Curupira, com seus pés voltados para trás para despistar caçadores, personifica o princípio hermético da correspondência e do equilíbrio: a natureza reagindo contra a ganância e a exploração predatória.
- A verdade histórica: As lendas brasileiras não nasceram prontas. Elas resultam do encontro de três matrizes: as cosmogonias indígenas, os mitos europeus trazidos pelos colonizadores e o rico acervo místico e espiritual trazido pelos povos escravizados da África.

As principais lendas e suas raízes simbólicas
- Curupira: O primeiro mito registrado no Brasil pelos colonizadores, citado pelo padre José de Anchieta em 1560. É a força primordial de proteção florestal.
- Iara (Mãe d’Água): Originalmente o mito indígena Ipupiara (o homem da água), a narrativa foi metamorfoseada sob influência europeia, ganhando traços das sereias greco-romanas.
- Mula sem Cabeça: Um mito de forte carga moralizante europeia e católica. Do ponto de vista simbólico, a chama que sai do pescoço representa a descontrolada paixão instintiva que consome a razão.
- Boitatá: A cobra de fogo que protege os campos contra as queimadas. Um mito puramente tupi-guarani (mboia-tatá), associado ao fenômeno físico do fogo-fátuo e elevado ao status de entidade protetora.
Saci-Pererê: curiosidades e arquétipos
O Saci é o maior símbolo do sincretismo cultural brasileiro. Originalmente uma entidade da mitologia guarani (Jaxy Jaterê), o Saci era representado como um curumim. Com a chegada dos negros escravizados e a influência africana, o mito se transformou: ele perdeu uma perna numa luta de capoeira, ganhou o cachimbo e a carapuça vermelha (originária dos gorros frígios da tradição greco-romana e europeia, associada à liberdade e à magia).
Sob a ótica do hermetismo e da mitologia comparada, o Saci é a síntese exata do arquétipo do Trickster (o trapaceiro sagrado), equivalente a Hermes na Grécia, Loki na mitologia nórdica ou Exu nas matrizes africanas. É a entidade que quebra a rigidez da rotina, que esconde objetos e que habita os redemoinhos de vento — o elemento Ar em constante transformação.

A cultura brasileira está sendo engolida pelo Dia das Bruxas?
A resposta direta e fundamentada é: não, a cultura brasileira não está sendo engolida, mas passa por um processo de aculturação e competição mercadológica.
O dia das bruxas (cujas raízes remetem ao festival celta de Samhain, o ano-novo celta em que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornava mais tênue) chegou ao Brasil empurrado pelo apelo comercial, pelo cinema hollywoodiano e pelas escolas de idiomas. Trata-se de uma celebração adaptada pelo capitalismo de consumo, esteticamente atraente para a infância e juventude modernas.
No entanto, decretar a “morte” do folclore brasileiro em razão da popularidade do dia das bruxas é uma leitura superficial por três motivos centrais:
- Diferença de natureza: O Halloween no Brasil opera como uma festa à fantasia e um evento comercial temporário. O folclore brasileiro opera na estrutura profunda da cultura: na medicina popular, nas festas religiosas, no bumba meu boi, no maracatu, na oralidade do interior e na literatura.
- Sincretismo e absorção: A cultura brasileira nunca foi estática; sua maior força é justamente a capacidade de deglutir influências externas e reelaborá-las.
- Resistência orgânica: A criação de datas comemorativas nativas e a inserção das lendas na literatura e na produção audiovisual contemporânea mostram que a identidade local se reorganiza para proteger suas narrativas.
O Saci e o dia das bruxas não se anulam; pertencem a esferas diferentes. Enquanto a festa importada é um produto de consumo sazonal, o folclore brasileiro é a própria matéria-prima da nossa psique coletiva.
Leia trambém no Mais Bahia:
Dia das Bruxas: a verdadeira origem entre mito e fé
Luena Pataxó: liderança Pataxó é premiada pela FAO


