POR ROD PEREIRA
Antigamente, para falar uma bobagem, era necessário encontrar alguém disposto a ouvi-la. Havia todo um esforço logístico. Era preciso sair de casa, procurar uma vítima, iniciar uma conversa e correr o risco de ouvir um sonoro “você não sabe do que está falando”. Hoje, basta ter um celular, dois dedos funcionando e acesso à internet. A ignorância, finalmente, conquistou o direito de transmissão em tempo real.
Acordamos num mundo em que todo mundo sabe tudo. O sujeito nunca abriu um livro de medicina, mas discorda do cardiologista. Não sabe localizar a Ucrânia no mapa, mas tem uma solução definitiva para a guerra. Desconhece o funcionamento de um avião, porém explica, com a segurança de quem projetou o Boeing, por que aquela aeronave caiu. E, se alguém apresenta evidências contrárias, pior para as evidências. Certamente foram compradas.
O mais extraordinário é a velocidade com que se adquire conhecimento. Um vídeo de quarenta segundos transforma qualquer imbecil em especialista. Cinco minutos no Google equivalem a um doutorado. Três mensagens encaminhadas no WhatsApp constituem uma tese científica. E a frase “eu pesquisei” tornou-se uma espécie de habeas corpus intelectual. Ninguém pergunta onde, como ou com quem. Pesquisou, está absolvido.
Outro dia, presenciei uma discussão sobre inteligência artificial. Um dos participantes garantia que as máquinas acabariam com a humanidade. O outro afirmava que elas já tinham consciência própria. Nenhum dos dois sabia configurar a impressora. Mas discutiam o futuro da civilização com tamanha convicção que fiquei constrangido de perguntar se conseguiam imprimir um PDF.
E há os fiscais da existência alheia. Esses são fascinantes. Não conseguem administrar a própria vida, mas oferecem consultoria gratuita sobre o casamento dos outros, a educação dos filhos dos outros, o corpo dos outros e até a maneira correta de morrer. Basta alguém anunciar uma separação para surgir uma banca examinadora de relacionamentos. Em minutos, o amor vira diagnóstico, a tristeza vira fraqueza e a privacidade, um defeito de caráter.
O problema não é ter opinião. É confundir opinião com conhecimento, convicção com inteligência e volume de voz com autoridade. O silêncio, outrora sinal de prudência, tornou-se uma espécie de confissão de inferioridade. Ninguém pode simplesmente dizer “não sei”. É preciso improvisar uma explicação, inventar uma teoria ou, na falta de argumentos, escrever em letras maiúsculas.
Talvez estejamos testemunhando uma transformação inédita: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e tão pouca disposição para admitir que não sabemos alguma coisa. A humanidade criou bibliotecas digitais, universidades abertas e ferramentas capazes de responder a perguntas complexas. E utilizou tudo isso para aperfeiçoar a arte de falar besteira com confiança.
Termino este artigo convencido de que o mundo seria infinitamente melhor se as pessoas parassem de dar opiniões sobre assuntos que desconhecem. Uma convicção absoluta, naturalmente. Afinal, acabei de escrever uma coluna inteira para explicar como a humanidade deveria se comportar.
A diferença é que eu tenho espaço no jornal.
E isso, convenhamos, não me torna menos idiota. Apenas me dá mais caracteres.

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