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COLUNAS POLÍTICA

A República dos fiéis

30 de junho de 2026
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Imagem gerada por I.A.

POR ROD PEREIRA |

Há quem diga que o Brasil é um país dividido. Discordo. O Brasil está unido. Unido na extraordinária capacidade de transformar políticos em santos, mártires ou messias. Basta trocar a camisa. Uns vestem vermelho e juram que Lula é a reencarnação da justiça social. Outros vestem verde e amarelo e já enxergam em Flávio Bolsonaro o herdeiro destinado a concluir a obra do pai. A camisa muda. A fé permanece.

Talvez o nosso verdadeiro regime político nunca tenha sido a República. Talvez vivamos, há séculos, sob o império de Dom Sebastião. O rei português desapareceu em Alcácer-Quibir, no século XVI, e nasceu a lenda de que voltaria para salvar Portugal. O curioso é que Dom Sebastião nunca reapareceu em Lisboa. Preferiu fixar residência no Brasil. Desde então, volta religiosamente a cada quatro anos. Às vezes aparece barbudo. Outras vezes usa camiseta da Seleção. Em algumas eleições veste gravata. Em outras sobe numa moto. O rosto muda. A promessa é rigorosamente a mesma: “deixem comigo”.

No altar petista, Lula já não é um político. É uma explicação para tudo. Se a economia melhora, foi sua genialidade. Se piora, a culpa é do Banco Central, do Congresso, do mercado, da imprensa, do clima, da oposição ou de Mercúrio retrógrado. Lula participa apenas das vitórias. As derrotas pertencem sempre aos outros. É um privilégio que nem os santos conseguiram negociar com Deus.

No altar bolsonarista, o fenômeno não é diferente. Flávio Bolsonaro já é tratado por muitos como sucessor natural de uma missão quase hereditária, como se liderança fosse um patrimônio registrado em cartório. Pouco importa que continue sendo cobrado politicamente por episódios como o caso das rachadinhas, por controvérsias envolvendo seus negócios, por declarações que renderam desmentidos públicos ou pelos desgastes constantes que cercam seu grupo político. Também parece irrelevante que a própria família viva em permanente conflito público, com um irmão autoexilado transformando antigos aliados em adversários quase na velocidade com que publica vídeos nas redes sociais. Para os fiéis, tudo isso deixa de ser problema e passa a ser perseguição.

Os fanáticos têm uma característica curiosa. Não defendem ideias. Defendem biografias. Não discutem projetos. Discutem pessoas. Descobriram uma nova teoria política segundo a qual honestidade, competência e inteligência são hereditárias. É a primeira monarquia genética da história instalada dentro de uma República.

Enquanto isso, o brasileiro acorda cedo, enfrenta duas horas de trânsito, paga imposto quando compra, paga imposto quando vende, paga imposto quando abastece, paga imposto quando herda e paga imposto até quando morre. Este ano o Estado brasileiro ultrapassou a marca de dois trilhões de reais arrecadados em tributos. Dois trilhões. É tanto dinheiro que seria razoável imaginar hospitais funcionando como hotéis, escolas formando gênios e estradas lisas como mesa de bilhar. Mas, por algum fenômeno exclusivamente brasileiro, quanto mais dinheiro entra no Estado, mais o Estado aparece na televisão explicando por que falta dinheiro.

O brasileiro já se acostumou ao absurdo. Entra num hospital e leva uma cadeira de casa. Compra um carro e precisa decorar o mapa dos buracos da cidade. Paga plano de saúde, escola particular e segurança privada enquanto financia, por meio dos impostos, exatamente esses mesmos serviços que deveria receber do poder público. É o único cliente do mundo que paga duas vezes e ainda agradece quando o atendimento não é péssimo.

Mesmo assim, continuamos procurando um salvador. Talvez porque seja mais confortável acreditar em um messias do que admitir que nenhum país melhora enquanto seus cidadãos preferem a idolatria à fiscalização. Afinal, santo não presta contas. Messias não aceita crítica. E fiel não faz perguntas.

Talvez Dom Sebastião nunca tenha morrido. Talvez apenas tenha aprendido português com sotaque brasileiro e descoberto que aqui sua lenda rende votos. De quatro em quatro anos ele reaparece. Troca de nome, troca de partido, troca de slogan, troca de marqueteiro. Só não troca os devotos.

E o mais extraordinário de tudo é que, passada a eleição, o milagre nunca acontece. Mas os fiéis juram que, desta vez, foi culpa da falta de fé.

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