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COLUNAS

Brasil, um país que precisa ser estudado antes que seja explicado

2 de setembro de 2026
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POR ROD PEREIRA

O Brasil não é exatamente um país. É uma experiência. Provavelmente começamos como experiência portuguesa, depois passamos a experiência republicana e, em algum momento que ninguém conseguiu precisar, tornamo-nos uma experiência social realizada sem grupo de controle. Aqui acontece de tudo. E o mais impressionante não é acontecer. É acontecer novamente.

No resto do mundo, quando alguma coisa dá absurdamente errado, forma-se uma comissão para descobrir o que aconteceu. No Brasil também. A diferença é que aqui frequentemente colocamos na comissão algumas das pessoas que estavam presentes quando tudo deu errado. É uma forma sofisticadíssima de investigação participativa. E, convenhamos, bastante inclusiva.

Temos ainda uma extraordinária relação com o dinheiro público. O dinheiro público, como sabemos, não pertence a ninguém. E, justamente por não pertencer a ninguém, aparece uma quantidade impressionante de gente disposta a cuidar dele. Com dedicação. Às vezes tanta dedicação que o dinheiro desaparece de tanto ser cuidado.

Mas devemos evitar julgamentos precipitados. O Brasil é o país do devido processo legal. Primeiro vem a denúncia. Depois a investigação. Depois o recurso. Depois o recurso do recurso. Depois uma discussão sobre a competência de quem julgou o recurso anterior. Quando percebemos, passaram-se vinte anos e o réu já virou patrimônio histórico.

Nossa política também merece estudo antropológico. Temos conservadores que defendem mudanças, progressistas que conservam seus cargos, liberais apaixonados por dinheiro público e estatistas que adoram empresários amigos. Há ainda moralistas com advogado de prontidão e revolucionários profundamente irritados quando alguém ameaça revolucionar sua posição no partido. Ideologia, por aqui, é maravilhosa. Desde que não atrapalhe a eleição.

O Brasil é o país do devido processo legal. Primeiro vem a denúncia. Depois a investigação. Depois o recurso. Depois o recurso do recurso. Depois uma discussão sobre a competência de quem julgou o recurso anterior. Quando percebemos, passaram-se vinte anos e o réu já virou patrimônio histórico.

O brasileiro, entretanto, continua acreditando. Esse talvez seja nosso problema e, ao mesmo tempo, nossa salvação. A cada quatro anos descobrimos finalmente a pessoa que vai resolver o Brasil. Ela sobe no palanque, garante que tudo será diferente, promete acabar com privilégios, combater desperdícios e governar para todos. E nós, disciplinadamente, acreditamos de novo.

Depois da eleição vem o período conhecido como realidade. E a realidade brasileira tem uma peculiaridade interessante: quase nunca corresponde exatamente ao material de campanha. Talvez fosse conveniente obrigar toda propaganda eleitoral a trazer, em letras pequenas, aquela advertência tradicional dos comerciais: “Imagens meramente ilustrativas”. Seria uma inovação democrática. E, sobretudo, honesta.

Também somos especialistas em criar nomes elegantes para problemas antigos. Pobreza vira vulnerabilidade socioeconômica. Fila vira demanda reprimida. Buraco na rua vira intervenção pendente. Aumento de imposto vira recomposição arrecadatória. Gasto vira investimento. E quando absolutamente ninguém sabe explicar o que aconteceu, chamamos de problema estrutural.

“Estrutural”, aliás, é uma palavra extraordinária. Serve para tudo. O hospital não funciona? Problema estrutural. A escola não ensina? Estrutural. A segurança fracassou? Estrutural. A economia não cresce? Estrutural. Se continuarmos assim, daqui a pouco descobriremos que o principal problema estrutural do Brasil é justamente a estrutura.

Mas não sejamos pessimistas. O país também funciona. Funciona apesar do Estado, dos políticos, dos impostos, da burocracia e das crises. Funciona apesar das reformas que prometem simplificar aquilo que a reforma anterior já havia simplificado antes de alguém complicar novamente. É quase um milagre administrativo. Sem verba para o milagre, naturalmente.

Todos os dias milhões de brasileiros acordam, trabalham, produzem, vendem, compram, ensinam, constroem, cozinham, transportam, empreendem e pagam contas. Inclusive as do governo. Especialmente as do governo. Talvez por isso Brasília tenha tanta fé no brasileiro. Ela sabe que ele aguenta. E testa essa hipótese com notável frequência.

O brasileiro, entretanto, continua acreditando. Esse talvez seja nosso problema e, ao mesmo tempo, nossa salvação.

Aumenta uma taxa. Ele reclama e paga. Cria uma contribuição. Ele reclama e paga. Inventa uma obrigação acessória para explicar outra obrigação principal que ninguém compreendeu. Ele reclama, contrata um contador e paga. O Brasil talvez tenha descoberto uma fonte renovável de energia que nenhum outro país percebeu: o contribuinte.

Quanto mais apertam, mais ele produz. Até porque precisa ganhar dinheiro para pagar o imposto sobre o dinheiro que ganhou tentando ganhar dinheiro suficiente para pagar os impostos. É quase poesia. Concreta, naturalmente. Principalmente quando chega o boleto. Nesse momento, a metáfora desaparece e fica apenas o vencimento.

E, apesar de tudo, gostamos daqui. Esse é o detalhe que torna o caso ainda mais intrigante. Reclamamos do Brasil de manhã, defendemos o Brasil à tarde e, se um estrangeiro resolver concordar conosco à noite, imediatamente perguntamos quem ele pensa que é para falar do Brasil. Criticar o país é uma prerrogativa nacional. Quase cláusula pétrea.

Talvez porque saibamos que este país poderia ser extraordinário. Tem território, recursos, gente criativa, diversidade, produção, inteligência e uma capacidade de sobrevivência que desafia qualquer manual de administração pública. O que frequentemente nos falta não é potencial. É juízo. E talvez aí esteja nossa verdadeira tragédia.

O Brasil não é um país condenado ao fracasso. Seria até mais simples se fosse. Somos um país permanentemente condenado à possibilidade de dar certo. E talvez seja exatamente isso que mais incomode. Porque, quando tudo está à mão, quando os recursos existem e quando a capacidade também existe, fica difícil culpar o destino.

No fundo, o Brasil parece aquele aluno brilhante que chega à prova sem estudar, esquece a caneta, discute com o professor e ainda pergunta se haverá segunda chamada. Tem talento de sobra, oportunidade de sobra e uma impressionante habilidade para transformar vantagem em dificuldade. Depois olha para o resultado e pergunta, sinceramente surpreso: “Mas onde foi que eu errei?”

Brasil Rod Pereira
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