A escalada da disputa por terras na região do Monte Pascoal atinge seu ápice com ataque a assentamento rural; Polícia Militar prende três suspeitos.
O Extremo Sul da Bahia mergulhou novamente em um cenário de violência extrema. Na manhã desta terça-feira, o conflito fundiário que se arrasta há décadas na região resultou no assassinato de dois agricultores e deixou um terceiro gravemente ferido em um ataque no assentamento rural Córrego da Barriguda, na zona rural de Itamaraju.
O ataque, atribuído a um grupo de cerca de 30 indígenas Pataxó armados, representa o mais trágico desdobramento recente da disputa territorial entre comunidades tradicionais e produtores rurais/assentados.

Duplo Homicídio e Estado Grave do Sobrevivente
As vítimas fatais são pai e filho: Alberto Carlos dos Santos, de 60 anos, e Amauri Sena dos Santos, de 37. Segundo relatos de moradores do assentamento, o grupo armado chegou ao local alegando uma ação de “retomada de território” ancestral, dentro dos limites reivindicados da Terra Indígena Barra Velha.
O terceiro agricultor, Joabson Lima Alves dos Santos, de 35 anos, foi socorrido em estado grave, com ferimentos a bala na cabeça, fêmur e abdômen. Ele foi submetido a cirurgia e segue internado no Hospital Municipal de Itamaraju, com seu quadro de saúde demandando cuidados intensivos.
Resposta Imediata: Polícia Captura Suspeitos
A Polícia Militar da Bahia (PMBA) agiu rapidamente para reforçar o patrulhamento ostensivo na área, que está sob intensa tensão. Em poucas horas após o crime, a PMBA confirmou a captura de três indivíduos suspeitos de envolvimento no ataque.
A Força Nacional de Segurança Pública e equipes da Polícia Civil, sob a coordenação da Delegacia Territorial de Itamaraju, foram mobilizadas para conduzir o inquérito. A prioridade é determinar a autoria e a dinâmica exata do ataque, em um contexto onde a linha entre crime comum e disputa territorial é tênue e letal.

O Contexto da Crise: Tensão na TI Barra Velha
O Córrego da Barriguda é uma área de assentamento de reforma agrária, mas está sobreposta ao território que os indígenas Pataxó reivindicam como parte da Terra Indígena Barra Velha, delimitada pela Funai, mas ainda sem a homologação final.
A falta de conclusão dos processos demarcatórios é o principal combustível da violência. De um lado, os Pataxó denunciam ataques sistemáticos de pistoleiros e milícias rurais – a exemplo do grupo “Invasão Zero” – que tentam impedir as retomadas e já resultaram no assassinato de diversas lideranças indígenas. De outro, os produtores rurais e assentados denunciam que as invasões ocorrem de forma violenta, com roubos e agressões, questionando a legitimidade de algumas ações de retomada.

O Impasse Institucional
Diante da tragédia, a resposta institucional tem sido focada no curto prazo:
- Segurança: O Governo da Bahia concentra esforços na garantia da ordem pública e na investigação criminal. No entanto, o governador enfrenta críticas políticas de parlamentares da oposição por suposta omissão diante da escalada de violência.
- Demarcação: A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) reiteram que a solução estrutural é a demarcação. Argumentam que a incerteza jurídica, agravada pela lentidão burocrática e decisões políticas, como a vigência da tese do Marco Temporal, perpetua o cenário de guerra no campo, expondo tanto indígenas quanto não indígenas ao risco de morte.
Enquanto a justiça atua para identificar os responsáveis pelo duplo assassinato, a comunidade do Extremo Sul da Bahia permanece refém de um conflito que exige uma intervenção federal urgente e definitiva na questão territorial para que a paz seja restaurada.
