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Início » Entre o Real e o Surreal: Uma leitura de “Depois de Horas”
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Entre o Real e o Surreal: Uma leitura de “Depois de Horas”

por Pedro Fernandes
27 de novembro de 2025
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Definir Depois de Horas (After Hours, 1985) é quase tão difícil quanto explicar a sensação de assisti-lo. Martin Scorsese conduz o espectador por uma noite absurda, que começa como uma possível comédia romântica, passa por momentos de aventura, flerta com o a atmosfera Noir e mergulha de vez em uma comédia de erros. É uma daquelas obras que, quanto menos se souber sobre ela, melhor.

Contudo, cá estou eu me contradizendo e abordando essa joia “esquecida” em meio à filmografia de Scorsese.

Sinopse

Paul Hackett é um funcionário de escritório que vive uma vida estupidamente monótona. Certo dia, em meio a esse marasmo, Paul encontra em uma lanchonete uma garota com quem logo tem uma conexão através de um livro. Ele então consegue o número da moça e é convidado a visitá-la. Para ir ao local, ele pede um táxi com uma nota de vinte dólares. Essa nota, o único dinheiro que lhe resta, vai embora pela janela do veículo durante uma ultrapassagem. Ele até consegue chegar ao seu destino, mas logo vê que a garota, outrora muito interessante, se revela um drama completo. É a partir daí, com Paul tentando desesperadamente voltar para sua casa e sua rotina miserável, que se inicia uma série de acontecimentos surreais que, acredite se quiser, vão desde uma garçonete infeliz até assaltantes que usam um caminhão de sorvete como meio de transporte.

Considerações

Em Depois de Horas, Scorsese utiliza o surrealismo como artifício central para dar peso à narrativa. A noite de Paul se desenrola como um sonho (ou pesadelo) em que cada encontro parece obedecer a uma lógica própria. Esse constante deslocamento entre o real e o absurdo faz com que a história, que por si só não é nada complexa, se torne o resultado de um roteiro fantástico: simples na estrutura (um homem que quer voltar para casa), porém brilhante justamente nesse processo de “desestruturação”.

Essa sequência de acontecimentos quase inacreditáveis provoca uma ansiedade profunda no espectador. Tudo está em desequilíbrio: Paul não entende as regras que regem aquela noite; as pessoas que encontra parecem movidas por desejos estranhos ou por violência latente; e o espaço urbano de SoHo-Nova York assume contornos de uma selva noturna. A cidade deixa de ser cenário neutro e ganha vida, quase como personagem, com suas ruas vazias, becos, luzes de néon apagadas, vapores saindo da grade do esgoto. A cinematografia, alinhada à montagem, torna visível esse “lado B” da metrópole, como algo imersivo e totalmente implacável.

Paul, por sua vez, é quem “sobra” nessa história e é exatamente por isso que parece tão perdido. Ele vive em rotina num escritório, mas é catapultado para uma noite em que todas as referências que tinha deixam de valer. O espectador sente essa “perda de chão” junto com ele: planos fechados, inserts de chaves, de moedas, tudo como se estivéssemos no seu ponto de vista. No filme, não vemos o todo; vemos o claustrofóbico e o incontrolável.

Paul é o retrato de alguém moldado. O longa, na primeira cena, o apresenta como alguém que vive para cumprir tarefas, sem prazer nem propósito. E quando tenta quebrar essa rotina, é engolido por uma noite caótica que o faz encarar o próprio vazio.

No fim, “Depois de Horas” é uma experiência tão sufocante quanto fascinante. O filme mistura humor, desespero e um senso constante de desorientação que prende o espectador do início ao fim. É Scorsese em um de seus momentos mais ousados, transformando o banal em matéria. Uma jornada hipnótica por uma Nova York desconhecida e um lembrete de que, às vezes, basta uma única noite para tudo virar um grande pesadelo. Ou no caso do protagonista, a continuidade de um.

Nota: 9/10

Onde assistir: HBO Max


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After Hours coluna Depois das Horas Mais Bahia
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