POR ANA BANDARRA

A música tem a capacidade de atravessar fronteiras, aproximar culturas e revelar identidades. Foi exatamente essa experiência que o público viveu na noite do último sábado, 3 de outubro, quando o ECOAR Bahia recebeu o Quinteto de Cordas da Bahia para a apresentação do concerto Sotaques da Música Clássica.
Desde os primeiros acordes, tornou-se evidente que não se tratava apenas de um concerto. Havia ali um convite à escuta sensível, uma travessia por paisagens sonoras que uniam tradição, memória e pertencimento.
Em conversa com esta autora, a violista Laís Guimarães, natural de Salvador, destacou que o Quinteto de Cordas da Bahia atua atualmente como um grupo independente, reunindo músicos de diferentes estados brasileiros. A observação ajuda a compreender a riqueza de experiências que se refletem na identidade artística do conjunto e na diversidade de seu repertório.
A noite foi conduzida por obras que dialogaram com diferentes tempos, territórios e culturas. Integraram o programa Suíte Brasiliense, 3 Peças Nordestinas, Voo Seridó, de autoria do contrabaixista Rodolfo Lima, Telegotengo, Divertimento in D, de Mozart, o Movimento 3 do Quinteto de Dvořák, Shine You No More, Samba de Couro de Trancoso e Um Tom pra Jobim. A seleção revelou a versatilidade do grupo, que transitou com naturalidade entre a tradição da música de concerto e as sonoridades brasileiras.
Entre as obras apresentadas, destacou-se Voo Seridó. Inspirada no voo do carcará sobre a região do Seridó, a composição de Rodolfo Lima evoca a vastidão da paisagem nordestina e traduz, por meio da música, movimentos, imagens e sensações que parecem nascer da própria terra. A obra demonstra como a criação contemporânea pode dialogar profundamente com a cultura e a geografia de um lugar.
Outro momento de especial significado ocorreu durante a execução de Samba de Couro de Trancoso. Ao apresentar a peça, o violinista Edivonei Júnior destacou sua relação com a cultura de Trancoso e com as tradições preservadas pela comunidade ao longo das gerações. A obra remete a manifestações culturais ligadas aos festejos de São Sebastião e São Brás, traduzindo em música aspectos da memória, da fé e do patrimônio cultural que ajudam a construir a identidade do distrito. Sua presença no repertório aproximou a música de concerto das raízes culturais do extremo sul da Bahia, criando uma ponte afetiva entre o palco e a comunidade.

Cada obra trouxe consigo um universo próprio. Em certos momentos, os instrumentos pareciam conversar entre si; em outros, pareciam narrar histórias sem palavras. O público era conduzido por caminhos que iam da tradição europeia às sonoridades nordestinas, revelando a extraordinária capacidade da música de unir mundos aparentemente distintos.
Um aspecto particularmente marcante foi a alegria dos músicos em cena. Entre sorrisos, olhares cúmplices e gestos discretos de entendimento, era possível perceber o prazer com que compartilhavam a música. Havia leveza, entusiasmo e uma evidente cumplicidade entre os integrantes do grupo. A satisfação estampada em seus semblantes lembrava que a arte também nasce do encontro, da amizade e do prazer de criar juntos.
A sintonia entre os músicos manifestava-se igualmente na escuta atenta e no diálogo permanente entre os instrumentos. Cada voz encontrava seu espaço sem se sobrepor às demais, construindo uma unidade sonora harmoniosa e envolvente. Era como se cada músico conhecesse não apenas sua própria parte, mas também a respiração musical do outro.
Mais do que um concerto, a apresentação constituiu uma experiência cultural e humana. Em um tempo marcado pela pressa e pela dispersão, a música ofereceu um espaço de permanência, escuta e contemplação. Por algumas horas, os sons ocuparam o lugar das urgências, convidando o público a perceber a beleza presente nas diferenças, nos encontros e nas histórias que cada obra carregava consigo.
A diversidade do público presente também mereceu destaque. Boa parte da plateia era formada por estudantes de música, professores da ECOAR Bahia, coralistas da Oficina de Coral, cantores, jornalistas, pais de alunos e membros da comunidade admiradores da boa música. A presença de diferentes gerações e perfis reforçou o caráter agregador do evento, transformando o concerto em um espaço de encontro entre aprendizagem, apreciação artística e convivência cultural. Mais do que espectadores, os presentes compartilhavam o interesse comum pela música e pelo fortalecimento das iniciativas culturais que enriquecem a vida da comunidade.
Ao final da apresentação, a presidente da instituição, Carla Nunes, agradeceu a presença de todos e destacou o papel transformador da arte na sociedade. Em sua fala, ressaltou a importância da cultura como instrumento de formação humana, diálogo e construção de uma convivência mais harmoniosa. Lembrou ainda que iniciativas artísticas e culturais representam caminhos possíveis para a promoção da paz e da cidadania, contrapondo-se às diversas formas de violência que desafiam a sociedade contemporânea. Suas palavras ecoaram o espírito do concerto, reafirmando a arte como espaço de encontro, reflexão e esperança.
Os aplausos calorosos traduziram o reconhecimento do público por uma noite em que diferentes sotaques musicais encontraram harmonia em um mesmo palco. E talvez essa tenha sido a maior lição do concerto: a de que a música, quando nasce do diálogo entre culturas, memórias e afetos, torna-se uma linguagem capaz de nos aproximar uns dos outros e de nos reconectar com aquilo que há de mais humano em nós.
Ana Bandarra
Relato Cultural

