2025 foi o ano em que o Brasil demonstrou, com método e insistência, que o irrelevante passou a ser tratado como assunto de Estado, enquanto o essencial foi empurrado para o rodapé da história. O país não perdeu a capacidade de pensar. Perdeu o interesse.
Discutimos com fervor o comercial da Havaianas. Um chinelo virou ameaça ideológica. Houve quem enxergasse militância onde havia apenas borracha, marketing e briefing criativo. O debate ocupou redes sociais, programas de TV e colunas inflamadas. O Brasil parou para discutir um chinelo. E achou isso perfeitamente razoável.
O primeiro Oscar brasileiro seguiu pelo mesmo caminho. Não era cinema. Era esquerda. Não era reconhecimento artístico. Era Lei Rouanet. Pouco importava o filme, a técnica, o impacto cultural ou o feito histórico. O que importava era saber de que lado político estava a estatueta. A idiotização exige rótulos rápidos. Pensar dá trabalho.
A cada semana, uma nova comoção fabricada. Frases fora de contexto, teorias conspiratórias de baixo esforço intelectual, influenciadores indignados por obrigação contratual. O país discutiu tudo. Menos o que importa.
Enquanto isso, decisões graves passaram quase despercebidas. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro decidiu que o deputado então presidente deveria ser solto, mesmo diante de provas de vazamento de informações sigilosas. Nenhum levante moral. Nenhum coro virtual. O silêncio foi eficiente, quase elegante.
Orçamentos foram remanejados, decisões estruturais tomadas, privilégios preservados e ampliados. Tudo longe do feed. Tudo longe da indignação seletiva. A idiotização funciona assim. Ela distrai enquanto o essencial acontece fora de cena.

Curiosamente, os mais favoráveis ao governo não vieram às redes reclamar dos cortes na saúde ou na educação. Silêncio absoluto sobre a redução de recursos do BPC, aquele benefício que sustenta idosos e pessoas incapacitadas. Nenhuma hashtag, nenhum fio indignado, nenhum vídeo com trilha melancólica. A CPI do INSS segue no mesmo limbo. Ninguém fala. Ninguém compartilha. Não viraliza. A não ser pela oposição, Que clama por Lulinha ser convocado e que até aponta algumas evidências, mas é incapaz de organizá-las, sustentá-las ou conduzi-las com mínima competência. Falta método, sobra gritaria. Sem estratégia, a denúncia vira ruído. E ruído, no Brasil de 2025, é apenas mais um som disputando atenção com um chinelo, um comercial ou uma polêmica conveniente.
Surge então o caso do Banco Master. Milhões desaparecem, municípios e estados aparecem com papéis que não valem nada, deputados e senadores são citados, operações financeiras mal explicadas vêm à tona. Mas o debate nacional escolhe um único foco. A mulher do Xandão. O problema não é o sistema, não são os agentes políticos envolvidos, não são os entes públicos expostos. O problema é sempre um nome que rende clique. A idiotização precisa de rosto, não de estrutura.
E já que falamos de Supremo, vale registrar a curiosa coerência institucional. Em meio a discursos sobre diversidade, pluralidade e representatividade, o presidente que sempre clamou por diversidade indicou mais um homem branco, evangélico e “amigo pessoal”, note que o “amigo pessoal” é o mais importante dos fatores para ter sido escolhido. Antes, já havia indicado seu advogado. Agora o famoso “Bessias da Dilma” é indicado para a toga suprema. A liturgia do cargo segue impecável. A coerência simbólica, nem tanto. Fica a pergunta inevitável. Quem será o próximo amigo a ser indicado.
O Brasil de 2025 não foi apenas mal informado. Foi seletivamente indignado. Grita onde é confortável, silencia onde é necessário. Transformou a política em entretenimento raso e depois se espanta com a ausência de mudança.
A idiotização brasileira não é falta de inteligência. É escolha. Escolha por discutir o acessório enquanto o essencial é decidido em silêncio. E enquanto o barulho continuar valendo mais que o conteúdo, o país seguirá sendo governado fora de cena, longe do feed e longe da consciência coletiva.
Que 2026 venha com menos discurso e mais obra. Menos gritaria em rede social e mais país. Se melhorar, que seja de verdade.
PS: Deus nós defenda. É ano de eleição e Copa.




1 comentário
Boa opinião, sempre muito lúcido dos acontecimentos!