REDAÇÃO | MAIS BAHIA | POR FABIO DEL PORTO |
A paralisação dos rodoviários que travou as linhas de Porto Seguro, deixando milhares de trabalhadores dependentes de mototáxis e lotações clandestinas no Baianão e na Orla Norte, é o sintoma mais recente de uma doença crônica. A mobilidade urbana e intermunicipal no extremo sul da Bahia agoniza sob o peso da falta de investimentos, frotas envelhecidas e um desenho de linhas que ignora as reais necessidades de quem vive e trabalha na região.
O cenário atual revela que a crise se arrasta por três eixos fundamentais que asfixiam o dia a dia do cidadão e travam o desenvolvimento regional.
O preço do isolamento intermunicipal
Viajar entre os municípios do extremo sul — como Teixeira de Freitas, Itamaraju, Eunápolis e Porto Seguro — é um desafio financeiro e logístico. A falta de concorrência real nas linhas intermunicipais cria um monopólio informal que dita preços abusivos nas passagens. Para o morador de uma comunidade rural ou de uma cidade menor que precisa de atendimento médico especializado ou resolver burocracias nos polos regionais, o custo do bilhete compromete uma fatia agressiva do orçamento familiar.
Frotas obsoletas e estradas castigadas
A qualidade dos veículos que rodam tanto nas vias urbanas quanto nas rodovias da região é alvo constante de denúncias. Ônibus sem manutenção adequada, sem ar-condicionado — num calor que frequentemente passa dos 35 graus — e com quebras mecânicas frequentes são rotina. Esse sucateamento é agravado pelas condições precárias das estradas vicinais e de trechos críticos da BR-101 e da BA-001, o que acelera o desgaste dos veículos e torna as viagens perigosas e demoradas.
A exclusão das periferias e zonas rurais
Enquanto os cartões-postais e as áreas hoteleiras recebem atenção visual, os bairros periféricos e os distritos mais afastados enfrentam intervalos que superam duas horas entre um ônibus e outro. O trabalhador da ponta da linha é obrigado a sair de casa de madrugada e retorna na invisibilidade da noite, muitas vezes esperando em pontos de ônibus sem cobertura, iluminação ou qualquer segurança. Essa exclusão empurra a população para a informalidade das lotações, que operam sem fiscalização para cobrir o vácuo deixado pelo poder público e pelas concessionárias.
A resolução dessa crise exige mais do que acordos temporários de fim de greve. Demanda auditoria rigorosa nos contratos de concessão, abertura de novas licitações para estimular a concorrência e um plano integrado de mobilidade que trate o transporte público como o direito social garantido pela Constituição, e não como um privilégio de quem vive nos centros urbanos.

